Ameaças à democracia
Não é acidental que os dois países com o mais bárbaro historial recente de agressão aos povos do mundo (os EUA e o Estado sionista) se assumam como dotados de uma missão divina. Ainda Israel não fundara a sua legitimação política num texto religioso já os EUA se imaginavam incumbidos por um poder superior para dirigir o mundo. Dos recentes, se com George W. Bush os EUA cumpriam uma «missão», atribuída pelo «criador do céu», com Obama era o «destino manifesto» e o «excepcionalismo».
Daí existirem coisas como Freedom House (Casa da Liberdade, sediada em Washington), encarregada de atribuir certificados de liberdade e democracia aos países do mundo, classificando-os em «livres», «parcialmente livres» e «não livres». Para se ter uma ideia, na Ucrânia o golpe fascista de 2014 representa um «progresso democrático duramente conquistado».
Tem uma sucursal na Dinamarca, a Alliance of Democracies. Esta reúne anualmente uma «cimeira» (onde, de Biden e Blair a Guaidó e Aznar, está representada uma fina flor de democratas), e publica um Índice de Percepção da Democracia com base num inquérito internacional. Saiu o de 2023 e, com as devidas reservas, merece ser visto.
Visa sobretudo aferir o impacto e a eficácia do colossal aparelho de propaganda e de manipulação «ocidental». Mas veja-se o que os inquiridos consideram «ameaças à democracia». Os resultados são notáveis, e não apontam para a «Rússia» ou a «China» ou «outros países não livres»: a democracia é ameaçada pela desigualdade económica (69%), pela corrupção (68%), pela influência das corporações globais (pelo capital monopolista, diríamos nós) (60%). Nem mais.
O mundo real irrompe onde menos o esperam. E, mais tarde ou mais cedo, acabará a «missão histórica» de um capitalismo em cada vez mais profunda crise: a de procurar deter a caminhada humana para o progresso e a liberdade.