Shalom, Salam, Paz
Visitei Israel e Palestina em Junho de 2007. Realizava-se então, em Jerusalém, uma conferência internacional promovida por organizações sociais e partidos palestinianos e israelitas, com dezenas de participantes estrangeiros e dignitários religiosos judaicos, muçulmanos e cristãos. No centro do debate estava a solução dos dois Estados, há muito prometida, constantemente adiada e, pior, cada vez mais distante, devido a uma ocupação que se intensificava, já então pela mão de Netanyahu.
De visita aos comités populares de A-Ram pudemos verificar como o muro dividia aldeias e comunidades palestinianas, afastando agricultores das suas terras, crianças das escolas e doentes dos hospitais. Aí mostraram-nos os bilhetes de identidade azuis, de Jerusalém, e verdes, da Cisjordânia, a lembrar a África do Sul do apartheid (que, recorde-se, Israel apoiou até ao fim).
No coração da Cidade Santa, vimos prédios árabes ocupados por sionistas e marcados com estandartes, em sinal de conquista. Passámos por colonatos em construção, vimos pessoas a viver em tendas, nas ruínas do que antes tinham sido os seus lares, e conhecemos activistas israelitas que se batiam contra as cada vez mais frequentes demolições de casas palestinianas.
Verificámos a arrogância dos militares e como violavam diariamente a dignidade e a liberdade de milhares de palestinianos, e conversámos com alguns que se recusaram a prestar serviço nos territórios ocupados e que por isso pagaram um elevado preço, incluindo a prisão. Ouvimos estudantes israelitas a alertar para o racismo crescente, dirigido sobretudo contra os árabes, mas também contra judeus de outras origens que não europeia ou norte-americana, e sindicalistas da Cisjordânia a denunciar a sobre-exploração dos jovens palestinianos em Israel.
Em Ramalá visitámos o parlamento e conversámos com deputados eleitos no escrutínio realizado meses antes, exigido pela mal chamada comunidade internacional, que não gostou dos resultados e impôs sanções à Autoridade Palestiniana. E vimos, dispostas pela sala, as fotografias dos 45 deputados presos em Israel.
Num campo de refugiados conhecemos Yazin, então com 16 anos (o que será feito dele?), que enquanto nos mostrava a destruição provocada por sucessivos ataques israelitas, contava-nos o muito que já vira na sua vida ainda tão curta. E falou-nos de Gaza, cercada desde o ano anterior, onde a vida (aí sim, dizia-nos!!) «era difícil».
Perdoar-me-á o leitor por estas notas talvez demasiado pessoais, mas é uma evidência que, então como hoje, é a ocupação – e o apoio que lhe dá o imperialismo – a causa da tragédia que se vive no Médio Oriente: pôr-lhe fim, garantindo os direitos do povo palestiniano, é o único caminho para a paz, que terá sempre de ser baseada na justiça.