Critérios obscenos
Para João Miguel Tavares, o tempo não é de lembrar os crimes de Israel. Segundo ele, «esse tempo virá. Só que não agora. Não antes que o sangue seque». Olhando para o rasto de sangue de milhares de vitimas inocentes – mulheres, crianças, idosos – que décadas de acção criminosa de Israel semeou, sem lhe tirar o sono, bem se pode dizer que em matéria de sangue, JMT está para ele como a galinha para a cabidela, ou seja, aí mergulhado.
Sem beliscar puritanismos e atavismos sempre se recomendaria a JMT, tão veemente em dar como «obscenas» as manifestações pró-palestinianas, que dirime o conflito de costumes com uma sua colega de jornal cujos padrões de democracia e de liberdade se medem pelo tamanho das mini-saias que em Israel se podem exibir.
Dir-se-ia que percorrendo o panorama mediático, com honrosas excepções, o que acima se aludiu é uma reduzida parcela do nível rastejante de seriedade intelectual não apenas do comentário mas, sobretudo e com maior gravidade da «informação», sequestradas que estão pelos centros de difusão dominantes. Nesta turba de quem se acotevela para apresentar serviço, de quem confunde jornalismo com opinião (é ouvir uma jornalista da CNN afirmar irritada com um entrevistado que teimava em sair do guião, que está ali «para vestir a camisola», claro está «do mundo ocidental»), de quem papagueia perguntas para, em registo de branco ou preto, inquirir até à impertinência boçal se «condena ou não condena», «invade ou não invade», «é terrorista ou não é».
Entre a ignorância, a obsessão anticomunista e as encomendas editoriais esvai-se aquela aparência mínima exigível à função profissional substituída, em alguns casos, por um mal disfarçado ódio. Sinais de um tempo que é preciso enfrentar, e que leva neste «democrático mundo ocidental» à proibição em França de manifestações pelos direitos dos palestinianos ou a que a BBC (esse antro comunista!) a ser zurzida por se ter atrevido a assumir uma definição do Hamas fora dos padrões estabelecidos.