Vamos a eles

João Frazão

«Então, a como é que sai o leite?»

«Não dá para pagar o comer.»

A conversa, entre um produtor de suínos e um de leite de ovelha, é real e representa outras tantas de muitos outros pequenos e médios agricultores.

«Tive que comprar ração para uns leitões que só têm duas semanas e custou-me, um saco de cinco quilos, 4,8 euros», retorquiu o primeiro. «Na comida para as ovelhas é a mesma coisa. Os sacos antes traziam 25 quilos e agora já só trazem 20, e o preço foi quase para o dobro. Eles vão acabar com isto tudo!»

O desânimo e a desesperança de quem trabalha a terra é traduzida, não apenas na estatística que nos revela a brutal redução do número de agricultores e explorações agrícolas, mas também no abandono, despovoamento e desertificação do mundo rural.

A pergunta é óbvia.

Quem são os «eles» que estes identificam como responsáveis pela destruição da pequena e média agricultura?

Será que estes sabem que «eles» são os grupos económicos e as multinacionais dos agroquímicos e das rações para animais que vêem os seus lucros crescer na directa medida em que crescem os prejuízos de quem produz?

Será que incluem nos «eles» a grande distribuição que esmaga os preços na cadeia alimentar na razão inversa do que impõe ao consumidor?

Assumirão que dos «eles» fazem parte os governos e os partidos da política de direita – PS, PSD e CDS – que ao longo de décadas os suportam?

Estarão nos «eles», que estes apontam, a União Europeia e a sua Política Agrícola Comum, que nos ia abrir portas a mercados imensos ávidos das nossas produções?

A questão de sempre que hoje, de novo, se coloca, não é tanto a identificação dos problemas, que nos entram pelos olhos dentro e, no caso destes, marcam a ferro quente a sua realidade que, se é verdade que nunca foi fácil, se tem agudizado sobremaneira nestes tempos de crise estrutural do capitalismo.

A questão é identificar as causas, os responsáveis e os caminhos para os superar.

A questão é que estes sejam capazes de perceber que «eles» querem acabar com o isto tudo que é a pequena e média agricultura, a agricultura familiar, porque são seus inimigos de classe, porque os seus interesses são inconciliáveis, porque a ruína destes é condição para «eles» crescerem e concentrarem ainda mais riqueza.

A questão é, ainda, fazer com que estes percebam que «eles» só acabam com isto tudo, se nós, em que estes têm um importante papel, não lhes travarmos o passo.




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