PCP denuncia propostas para «reforma da governação económica da UE»
Os deputados do PCP no Parlamento Europeu consideram que após anos de promessas de «flexibilização» do Pacto de Estabilidade e das regras inerentes à «governação económica da União Europeia», as propostas agora apresentadas adicionam novos e mais pesados constrangimentos à acção de Estados como Portugal.
Esta «reforma», de cariz neoliberal, dará ainda mais poder às principais potências encabeçadas pela Alemanha
A Comissão Europeia (CE) apresentou, no final de Abril, três propostas que visam concretizar a anunciada «reforma da governação económica» da União Europeia (UE), estabelecendo alterações ao quadro normativo existente.
Construídas a partir do Pacto de Estabilidade e de um conjunto de seus derivados – programas nacionais de reformas, recomendações por país, ambos enquadrados no Semestre Europeu – as normas relativas à «governação económica da UE» constituem uma densa teia de constrangimentos, imposições e sanções, com expressão mais directa no condicionamento da política orçamental de Estados como Portugal, mas que vai além disso, «cavalgando sobre outras áreas de soberania, como as questões salariais ou o financiamento e funcionamento dos serviços públicos e de outras funções sociais dos Estados» – destaca um comunicado do Gabinete de Imprensa dos deputados do PCP no Parlamento Europeu (PE), divulgado no dia 9 de Maio, em Estrasburgo.
A última década deixou bem à vista o prejuízo decorrente desta teia de constrangimentos, imposições e sanções, em particular na limitação da resposta, por parte de Estados como Portugal, a uma situação económica e social degradada e vulnerável, lembram os deputados comunistas portugueses.
Recordam que, no último mês de Março, o Eurogrupo e o Conselho de Assuntos Económicos e Financeiros (Ecofin), compostos por ministros das Finanças da Zona Euro e da UE, respectivamente, confirmaram, sob recomendação da CE, o fim da denominada cláusula de escape do Pacto de Estabilidade, que fora activada no período da pandemia de COVID-19. Esta decisão, com efeitos em 2024, significa a retoma, na sua plenitude, de todos os instrumentos de condicionamento associados ao Pacto de Estabilidade.
«Crescentes intromissões» na soberania dos Estados
Para os deputados do PCP no PE, após anos de promessas de «flexibilização» do Pacto de Estabilidade e das regras inerentes à «governação económica da UE», como já se antecipava, as propostas agora apresentadas não só não traduzem nenhum aligeirar das regras e condicionamentos existentes, como adicionam novos e mais pesados constrangimentos à acção de Estados como Portugal, com crescentes intromissões na sua soberania.
Os deputados do PCP no PE indicam com clareza quais são esses constrangimentos:
– Os países cujos rácios de défice e dívida ultrapassem os valores de referência inscritos nos tratados, 3 por cento ou 60 por cento do PIB, respectivamente, serão forçados a apresentar um plano orçamental de médio prazo, delineado e imposto pela CE. Tal plano passaria a estar associado à imposição de limitações concretas à evolução da despesa primária do Estado, exigindo-se que o seu crescimento seja inferior ao crescimento de médio prazo do PIB. Ora, a introdução deste critério – defendido e imposto pela Alemanha – visa reforçar a pressão exercida para a redução do investimento público, para a estagnação dos salários na Administração Pública, conduzindo a uma ainda maior debilitação da mesma, e para o desinvestimento nos serviços públicos e outras funções sociais do Estado – saúde, educação, segurança social, habitação. Perante a possibilidade de não acatamento dos ditames inscritos no plano orçamental, será exercida a permanente chantagem do procedimento por défice e dívida excessivos e as sequentes sanções;
– O quadro de sanções aos Estados é reforçado, com a introdução de um novo tipo de sanções, ditas «de carácter reputacional». Com efeito, os países considerados em risco de desvio da trajectória de despesa primária poderão ser chamados ao PE para se «justificarem». Se a «governação económica» vigente já encerra em si toda uma visão de pendor neocolonial, numa lógica de submissão e subordinação, em particular dos Estados economicamente menos desenvolvidos, esta pretendida reforma vem acrescentar-lhe novos elementos, seja do ponto de vista substantivo, seja de um ponto de vista simbólico. Trata-se de um novo ataque à soberania e independência de países como Portugal;
– Em cedência às imposições da Alemanha, assim demonstrando, uma vez mais, se necessário fosse, quem determina o conteúdo da acção das instituições da UE, são introduzidos elementos quantitativos obrigatórios, nos casos de défice acima do valor de referência, que implicam um ajuste orçamental mínimo de 0,5 por cento do PIB ao ano. Impõe-se, assim, um ainda maior constrangimento à implementação de medidas, de políticas, de investimentos, que os Estados considerem necessários, em particular em casos de situação de dificuldade económica;
– Esta proposta de «reforma», de cariz marcadamente neoliberal, a que não faltam as ditas «entidades supervisoras independentes» com funções de «vigilância», além de ser susceptível de agravar desigualdades económicas e de desenvolvimento entre os Estados, agrava desigualdades de poder no seio da UE, dando ainda mais poder às principais potências, encabeçadas pela Alemanha, seja por via do poder discricionário atribuído à CE, que controlam, seja por via de prerrogativas atribuídas ao Conselho – cláusulas de escape, colectivas ou individuais, excepcionais – igualmente dominado pelas principais potências da UE.
«Subjugação das opções e políticas nacionais»
Em síntese, as propostas apresentadas pela CE, que serão agora discutidas no PE e no Conselho Europeu, «aprofundam e ampliam a intromissão por parte das instituições da UE e das potências que as controlam nas políticas e opções orçamentais, financeiras, económicas e sociais de Estados como Portugal», sublinham os deputados do PCP no PE. Mais: «Fazem-no procurando dispor de um quadro normativo com mais sanções e com sanções mais fáceis de aplicar. O objectivo não é conceder aos Estados maior «flexibilidade» ou «margem de manobra» orçamental para promoverem políticas de crescimento e desenvolvimento económico e social, mas sim estabelecer um sistema mais eficaz de subjugação das opções e políticas nacionais de países como Portugal aos interesses das principais potências da UE e dos grandes grupos económicos.»
Os deputados do PCP no PE consideram que o que se impõe é a definitiva revogação do Pacto de Estabilidade e dos seus «derivados», o que requer a firme rejeição das propostas agora conhecidas. «Nada se deve sobrepor à utilização e concretização soberanas dos instrumentos e do potencial que Portugal tem à sua disposição para garantir os direitos e as aspirações dos trabalhadores e do povo português, para desenvolver o País», acentuam.
É com esta certeza e determinação que os deputados do PCP irão intervir no processo que se seguirá no PE.