Razões de queixa!

João Frazão

De crise em crise, pri­meiro a eco­nó­mica e fi­nan­ceira, de­pois a sa­ni­tária, de­pois a in­flac­ci­o­nária, o grande ca­pital anda in­va­ri­a­vel­mente de mão es­ten­dida, ar­ran­jando sempre ma­neira de sacar mais algum.

Esta se­mana, anun­ci­ando re­sul­tados dos dois pri­meiros meses do ano, os in­dus­triais do sector do Têxtil e Ves­tuário não de­cep­ci­o­naram.

Face a uma si­tu­ação em que até anun­ciam um au­mento de 1% nas ex­por­ta­ções re­la­ti­va­mente ao mesmo pe­ríodo do ano an­te­rior, não he­si­taram em pedir mais apoios, mo­ra­tó­rias e a fa­ci­li­tação dos pro­cessos de lay-off, para evitar fa­lên­cias que dizem ser ine­vi­tá­veis, uma vez que em Fe­ve­reiro se re­gistou uma re­dução de 3%.

Re­pare-se que fa­lamos de um sector que, apesar das su­ces­sivas la­mú­rias do pa­tro­nato, nos úl­timos anos atingiu re­cordes de pro­dução e ex­por­tação, não obs­tante um pro­cesso de re­con­versão in­dus­trial que con­cen­trou a pro­dução, que en­co­lheu a mão de obra em mais de 100 mil tra­ba­lha­dores, lan­çando muitos deles para re­formas an­te­ci­padas que sig­ni­ficam pen­sões de mi­séria, apesar de terem lon­guís­simas car­reiras con­tri­bu­tivas. Re­cordes que foram no­va­mente ul­tra­pas­sados nos úl­timos três anos, mesmo em cir­cuns­tância de epi­demia.

Um sector que, apesar de exigir dos seus tra­ba­lha­dores ritmos de tra­balho cada vez mais in­tensos e, não raras vezes, impor aos tra­ba­lha­dores, pelas mais va­ri­adas formas, horas extra e tra­balho ao sá­bado, ni­vela os sa­lá­rios da es­ma­ga­dora mai­oria dos seus tra­ba­lha­dores pouco acima va­lores mí­nimos le­gais no nosso País. Ou seja, à pro­dução e ex­por­tação má­ximas con­ti­nuam a cor­res­ponder sa­lá­rios mí­nimos.

Este é apenas um exemplo que ex­plica que, ao mesmo tempo que am­plas massas po­pu­lares – tra­ba­lha­dores, re­for­mados e pen­si­o­nistas, jo­vens, mu­lheres – se vêem con­fron­tadas com as mais sé­rias di­fi­cul­dades de­cor­rentes do es­ma­ga­mento dos sa­lá­rios e do brutal au­mento do custo de vida, os grupos eco­nó­micos apre­sentem os mai­ores lu­cros de sempre.

Mas eles con­ti­nuam a queixar-se.




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