Papagaios

Anabela Fino

Em 1997, entre os primeiros ataques da NATO, capitaneada pelos EUA, aos sérvios-bósnios da Bósnia-Herzegovina, e os bombardeamentos de Belgrado, capital da Jugoslávia, e do Kosovo – à revelia da ONU e em total desrespeito pela soberania da Jugoslávia –, os EUA decidiram criar o Office of Global Criminal Justice (OGCJ / Escritório de Justiça Criminal Global).

Inicialmente chamado de Office of War Crimes Issues, o Escritório de Justiça Criminal Global faz parte do Departamento de Estado dos EUA e tem por missão, segundo consta no seu sítio na Internet, assessorar o «Secretário de Estado e o Subsecretário de Estado para Segurança Civil, Democracia e Direitos Humanos em questões relacionadas a crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio. Em particular, o Escritório ajuda a formular a política dos EUA sobre a prevenção, respostas e responsabilização por atrocidades em massa».

Como o próprio calendário atesta, o OGCJ não se destina aos norte-americanos mas aos outros, a todos os outros que os EUA, imbuídos de uma autoridade auto-atribuída, entendam dever ser punidos.

Vestindo a farda de xerife de serviço e armada da prepotência arrogante conferida pela Casa Branca, a embaixadora geral dos EUA para a Justiça Criminal global, Beth Van Schaack, veio há dias afirmar em entrevista à euronews que a acusação do alegado crime de agressão cometido pela Rússia contra a Ucrânia «deve ser maximizada para criar um efeito dissuasor sobre outros países que possam ser “tentados” a ter comportamentos semelhantes».

«Outros estados que poderiam ser tentados a envolver-se em guerras de agressão pensariam duas vezes, porque veriam uma resposta de justiça robusta para o crime de agressão e também para os crimes de guerra e crimes contra a humanidade que poderiam decorrer da prática do acto inicial de agressão», disse Van Schaack, sem que ninguém a questionasse sobre as mais de três dezenas de agressões militares, incluindo invasões e golpes de Estado, levadas a cabo pelos EUA um pouco por todo o mundo nos séculos XX e XXI.

Se o jornalismo corporativo fosse uma coisa séria, a senhora devia ter sido questionada sobre a sanha persecutória dos EUA contra Julian Assange, o jornalista australiano fundador do WikiLeaks preso em Londres desde 2019, após anos e anos refugiado na embaixada do Equador, país que o «vendeu» em troca de favores. Acusado de espionagem, o «crime» de Assange foi ter divulgado ao mundo as atrocidades cometidas pelos EUA no Afeganistão. Atrocidades que configuram os tais crimes que o Escritório de Justiça Criminal Global se propõe julgar... em casa alheia.

Mas a seriedade anda perdida. O que está a dar é papaguear as versões de Washington e chacinar fontes desalinhadas. Afinal, um bom papagaio papagueia em inglês.




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