A «Central» e os boys do Governo PS

Carlos Gonçalves

O Governo PS, face à desgraça da sua política e à incapacidade de gerir sucessivas crises de descoordenação e comunicação errática e de resposta político-mediática caótica, avançou na implementação da sua «Central de comunicação», que, na verdade, é um «estado maior» e comando de recolha e tratamento de informação, contra-informação e manipulação, gestão de sondagens, iniciativa, agenda e mensagem de António Costa e do Governo, de direcção dos meios dos ministérios e conexos, dos assessores do PS e dos média.

A «Central» estrutura-se na dependência do chefe do Governo, do secretário de Estado Mendonça Mendes e da ministra Vieira da Silva, tem como director de comunicação J. Cepeda, vindo do grande capital, que coordena uns vinte assessores de marketing e comunicação, articula homólogos dos ministérios e conta ainda com trinta analistas e técnicos em São Bento. São centenas de boys & girls da estrutura do Governo na «Central» de comunicação, talvez maior que a das Finanças.

Os boys & girls da «Central», de nomeação política e sem concurso, são uma fatia importante dos oitocentos que o XXIII Governo já vinculou. Vêm da cepa dos milhares de nomeados do PS e PSD, de Cavaco e Guterres (que em sete anos nomeou doze mil), a Barroso, S. Lopes, Sócrates, P. Coelho e A. Costa, mesmo com falsas promessas de no jobs for the boys.

Houve nomeações que soçobraram, como a de Sérgio Figueiredo, da TVI para as Finanças do ministro Medina, mas um paradigma da realidade actual, em que cada vez mais boys exibem um invejável perfil académico – marketing, comunicação, relações internacionais –, de universidades privadas e estrangeiras – Católica, Oxford, Harvard –, ligações a multinacionais, grandes média, «redes sociais» e fundações e, no que mais importa, ao «bloco central» e às políticas de direita, para «circular» entre os vários governos e «portas giratórias» dos interesses dominantes.

Dizia Guterres, «o PS só tem feito asneiras», era a manha da vítimização para manipular simpatias, que se afogou no «pântano». Hoje, a tarefa da «Central de comunicação» é a salvação do Governo e da sua política de serviço ao capital financeiro, com encenação de «cedências» e festas e manipulação de consciências.

Importa esclarecer e lutar, e derrotar a política de direita.




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