Ilações do 18 de Março, uma acção que perdura

Jorge Cordeiro (Membro do Secretariado e da Comissão Política)

A 18 de Março desaguaram as muitas lutas que percorrem empresas e sectores

A poderosa manifestação nacional de 18 de Março não constituiu momento isolado. Nem no tempo nem no espaço em que se insere. Ali desaguaram as muitas lutas que percorrem empresas, locais de trabalho e sectores em defesa de direitos e salário. E ali se expressou de forma viva, pelo seu conteúdo e dinâmica, o embate de classe entre capital e trabalho recentrando o que a intensa ofensiva ideológica, a partir das suas extensões tentaculares, procura ocultar quanto à natureza, formas e raiz da exploração.

Ali, pela dimensão observada da corrente que preencheu praças e avenidas, se fez desmentido peremptório dessa insinuante manipulação em que medra a contraposição entre o sector público e o privado, em termos de inserção na luta, enquanto factor de divisão. A força da presença dos trabalhadores de empresas e sectores fala por si.

Uma força especifica, ainda que não isolável de todos quantos trabalham, incluindo os que ali estiveram a afirmar as reivindicações dos sectores da administração pública que, pela sua dimensão, talvez tenha ocultado o significado e alcance da luta que nas vésperas havia levado os enfermeiros dos hospitais dos grupos económicos do sector da saúde a expor as condições de exploração e a fazer ruir o mito do que deles a esforçada publicidade projecta.

Ali se testemunhou, com a presença dos trabalhadores da empresa concessionária dos bares dos comboios da CP, o que traduz em termos de exploração, violação de direitos e prejuízos para o interesse público a alienação a privados e a exibição dos seus critérios de gestão. Questão não menor quando a pretexto da TAP e dos crimes associados aos processos de privatização a que foi sujeita se semeia uma cruzada de mentiras para subverter a realidade, diabolizar a gestão pública, atirando-lhe para cima o que à gestão privada deve ser assacado, omitir que mesmo o que é público tem sido gerido pelos critérios dominantes dos grupos económicos.

Ali esteve presente a exigência do cumprimento do direito à saúde, à educação, à habitação ou à cultura. Uma exigência que confronta as opções do Governo do PS, com o apoio de PSD, CDS, Chega e IL, de favorecimento dos grupos e interesses privados, seja por via da degradação das condições de trabalho dos profissionais de saúde, empurrando-os para fora do SNS, seja por via da continuada drenagem de recursos públicos para os grupos económicos, seja pela ampliação de benefícios e privilégios fiscais. Opções acompanhadas de uma poderosa mistificação ideológica para, a partir das dificuldades que resultam da política de direita, demonizar o que é público e idolatrar o privado, apresentar o mercado como a solução para justificar a falta de investimento público, ludibriar e negar com o primarismo liberal e «direito de escolha» a resposta universal e de qualidade a todos.

Manipulação não apaga a luta

Ao ascenso da luta de massas e das parcelas de consciência social, política e de classe crescentemente adquiridas com a realidade concreta que dia-a-dia os trabalhadores e o povo testemunham, aí está, em contraposição a esse ascenso, a intensificação da ofensiva ideológica a partir dos centros do poder dominante, do grande capital enquanto mandante principal, do seus instrumentos de difusão e manipulação, da horda de colaborantes propagandistas.

Essa oleada máquina de manipulação ideológica capaz de transformar, como se vê com a habitação, um pacote de apoios e benefícios fiscais ao capital e fundos imobiliários no seu inverso, iludindo o que se impõe: travar o aumento das rendas, pôr os bancos a pagar o aumento dos juros no crédito à habitação, promover habitação pública.

Essa oleada máquina de manipulação tendente a transformar um ruinoso percurso associado à privatização da transportadora aérea nacional em desmando público para melhor a entregar ao estrangeiro. Essa oleada máquina de manipulação que, qual alquimia, transforma a pilhagem dos grupos económicos da grande distribuição em sujeitos e vitimas de intervencionismo estatal.

Essa oleada máquina de manipulação de conceitos e conteúdos de política fiscal enquanto arma de acumulação capitalista, seja para impor a limitação dos salários, contrapondo ao seu necessário e imperativo aumento uma engenhosa redução fiscal que ilibe o grande patronato desse ónus, seja com reduções fiscais que tenderão a aumentar as margens de lucro e acumulação se não forem acompanhadas da efectiva redução e fixação de preços, seja pela ardilosa teoria de apresentar a inflação como imposto escondido para desaguar na reclamação pelo capital de que à subida daquela deve corresponder redução de impostos, para si, claro!

Por estas e outras razões as muitas lutas que aí estão, da empresa às ruas, de Março a Maio, marcarão para o presente e futuro essa exigência de uma vida melhor, com justiça e progresso social.




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