Cantar a América e o Mundo inteiro

Manuel Pires da Rocha

Os movimentos revolucionários são mestres na escrita das canções feitas para serem ferramenta transformadora

rawpixel.com on freepik

Se mais provas não houvesse, seria a América Latina mostra evidente do talento da História nas artes da composição e da coreografia. Talento acrescentado, claro está, ao que aos humanos foi dado – transformar o que se vê e sente naquilo que se quer sentir e ver. E se uns passaram de um lado ao outro por vontade própria e curiosidade de ver para lá do horizonte, outros à viagem foram obrigados por maldades que são as da exploração do homem pelo homem ou o fugir à fome para terras de maior fartura.

À América chegaram escravos e migrantes. Levaram consigo (os que lá chegaram) a força de trabalho, que convinha às riquezas da classe dominante. E levaram também outras conveniências que eram só suas e os agarravam à condição de seres humanos, naqueles lugares onde os queriam bestas. Nuns lados mais, noutros menos, a gente que ali chegou, de um cais a outro cais, juntou, à gente que ali estava, linguajares, entoares e danças. Nas datas incertas em que acontece o imprevisto nasceram mestiçagens a que chamariam Rumba, Plena, Cumbia, Samba, Marimba, Landó, Joropo, Merengue, Chacarera, Punta e tantos mais nomes e sotaques quantos os naturais encontros e lugares em que aconteceram e acontecem.

Linguajares, entoares e danças ou, dito por outras palavras, verso de iletrado, música de rua e passo de pé descalço. Por distração ou desinteresse, os distribuidores dos tesouros da Civilização não furtaram às desvalidas sortes o impulso criativo, que é a riqueza do povo. Brecht nomeou, em poema conhecido, os que ergueram a Tebas das sete portas e a Babilónia tantas vezes destruída; e a Muralha da China, os Arcos da grande Roma e a Bizâncio dos palácios. Talvez Brecht tenha escolhido as obras de durar, por serem mais visível património. Mas deixou implícito que quem gárgulas esculpiu, algum som lhes imaginou nas bocas escancaradas; e quem transportou as pedras, em algum canto diluiu o esforço do impulso; quem no sol-a-sol se consumiu, nalgum baile se ofereceu à ventura de existir; quem se calou na desigual divisão do pão, em algum momento revoltas terá versejado. A música, a palavra e a dança são o primeiro alforge da Humanidade, o bem mais certo que consigo leva quem nada tem para levar – seja daqui para ali, ou de antanho para o devir, entre a faina e o entretém, da celebração ao protesto.

Já se falou dos talentos da História na arte da composição. Mas faltou dizer que os movimentos revolucionários e de protesto são mestres na escrita das canções feitas para serem ferramenta transformadora. Um pouco por todo o lado as canções passaram, de geração em geração, proposta alternativa ao ruído persistente da injustiça. Le Temps Des Cerises da Comuna de Paris, Warshawianka da Revolução de Outubro, We Shall Overcome da luta pelos direitos civis nos EUA, Avante, Camarada da luta contra o fascismo português, Grândola, Vila Morena da Revolução de Abril, A Internacional das lutas todas pelo socialismo, permanecem no cancioneiro dos movimentos de massas sempre que a consciência de classe se amplia e ameaça a estabilidade dos estados capitalistas.

Talvez em nenhum lado, como nas terras da América Latina, a canção tenha tido tão grande papel mobilizador, tão ampla expressão artística, tão grande significado no dizer das vontades dos comuns. Nomes como Carlos Puebla, Violeta Parra, Victor Jara, Daniel Viglietti, Atahualpa Yupanqui, Chico Buarque, Silvio Rodriguez, Mercedes Sosa, Gonzaguinha e movimentos como a Nueva Trova Cubana são autores do imenso cancioneiro que o século XX disponibilizou aos povos para que o encontro das vontades pudesse ser coro também. Nestes dias de combate e resistência na Bolívia, no Brasil, no Equador, no Peru, em Cuba, na Venezuela, na Argentina, no México, na Nicarágua e nos tantos territórios da América Latina, Victor Jara canta com voz renovada e urgente (nos 50 anos do seu assassinato) um estribilho universal: «Yo no canto por cantar / ni por tener buena voz, / canto porque la guitarra / tiene sentido y razón.»




Mais artigos de: Argumentos

Programação da CTA para 2023: qualidade e diversidade

Com a sala do Teatro Municipal Joaquim Benite, esse magnífico e emblemático espaço cultural de Almada, completamente esgotada, decorreu, a 6 de Janeiro, a sessão de apresentação do programa a desenvolver ao longo do corrente ano. Rodrigo Francisco começou por explanar a programação prevista,...