Onde e quando for preciso...
A deferência, a partir de determinado patamar, assume outros contornos
… sem estados de espírito ou desculpas. Esta é uma citação da intervenção proferida pelo Presidente da República (PR), numa cerimónia que teve lugar no Comando Aéreo, reiterando o compromisso de Portugal com a NATO.
Disse ainda: «Permanecemos prontos e firmes, com os nossos soldados, nos campos de batalha mais difíceis, em todos os continentes, mas sobretudo na Europa.» Pode haver quem olhe para estas afirmações como da família da fanfarronice. Mas elas são, sobretudo, da família da submissão, aspecto que ganha ainda mais sentido se tivermos presente foram proferidas perante o Comandante Supremo do Comando Aliado de Transformação da NATO, o general Philippe Lavigne, que marcou presença na cerimónia.
E, não tendo nada de surpreendente, não deixa de merecer registo. Desde logo pelos termos usados, que nos faz vir à memória épocas enterradas pela roda da Historia. É uma afirmação que, desalinhando com os valores constitucionalmente consagrados, expõe na plenitude a concepção que tem guiado as opções de sucessivos governos, de que Portugal não tem interesses próprios a defender, e na qual se insere, neste caso, o PR.
A deferência, a partir de determinado patamar, assume outros contornos. E assume ainda mais quando se conhece (está amplamente noticiado) os problemas que assolam o concreto da Instituição Militar. A disfunção entre o dito e a realidade, ainda que reduzida só ao simbolismo político das afirmações, não pode deixar de gerar incredibilidade no universo dos principais destinatários. Nem pode deixar de gerar o sussurro de que houvesse tanta acutilância e disponibilidade para tratar os problemas que se vão somando na vida dos militares e por certo outro seria o panorama.
Há 24 anos, decorria um dos processos de alargamento da NATO e, por iniciativa, do PCP foi promovido um debate. Na intervenção então proferida pelo PCP na Assembleia da República, foi dito: «do que aqui tratamos é de saber se se está a caminhar para um modelo que construa uma paz duradoura na região e dê uma contribuição positiva para a paz no mundo, ou se, pelo contrário, se estão a lançar achas para uma fogueira que algum dia queimará as hipóteses de estabilidade, segurança e cooperação. Do que tratamos é de discutir se a construção da paz não tem de ser por definição um processo assente no respeito mútuo, na criação da confiança, na irradicação das hegemonias e das relações de domínio e subordinação.(...)é tempo de fazer uma reflexão profunda e arrepiar caminho, na direcção da paz, da segurança, da cooperação, nesta Europa de europeus, de nações que devem assumir o seu futuro e a segurança. Alguns dos senhores deputados acharão certamente que este debate é uma maçada, uma perda de tempo.»
Nessa altura era presidente do PSD o actual Presidente da República.