À família!
Os CTT foram agraciados com o galardão de empresa amiga das famílias. Ao que se conhece, a APCER – Agência Portuguesa para a Certificação, a Fundacion Mas Família e a ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores, puseram-se de acordo em apontar aquela empresa como exemplo de boas práticas no que ao «desenvolvimento e implementação de um Modelo de Gestão de Pessoas, centrado na melhoria da experiência dos colaboradores e assente no/a: respeito, flexibilidade, inclusão, compromisso, melhoria contínua, qualidade e sustentabilidade», diz respeito.
Com tais predicados, tantos que até cansam, nem se percebe por que razões se queixam os trabalhadores dos salários baixos, das cargas de trabalho cada vez mais exigentes, das condições degradadas, dos fardamentos desadequados, dos aumentos dos preços das refeições, quando não dos encerramentos de refeitórios.
Nem se compreende por que motivos protestam as populações que recebem o correio, uma boa parte dele urgente, cada vez mais tarde ou que ficaram sem as estações de correio.
E não se vê por que reclama o País que, com a privatização, perdeu uma empresa estratégica, perdeu milhões de euros de lucros e impostos, perdeu capacidade de decisão numa área nevrálgica para o desenvolvimento nacional.
Não se alvitra, por fim, por que não ficamos todos orgulhosos com quem recebe esta honraria, que, veja-se bem, assenta nos pilares do «desenvolvimento profissional e pessoal», ainda que condene os seus trabalhadores a jornadas longas e penosas; do «apoio à família», mesmo que ele não seja possível sem que o serviço fique por fazer; da «flexibilidade temporal e espacial», com o que isso significa de desregulação da vida de cada um; da «igualdade de oportunidades», ainda que as únicas oportunidades que existem sejam as de acabar a carreira como carteiro, sem mais recompensa por isso; da «qualidade no trabalho», que, não obstante o rol de queixas de que a empresa é alvo, só não é pior pelo esforço dos seus trabalhadores.
Até porque nem todas as famílias se queixam. As famílias dos accionistas, que viram os CTT endividar-se e vender património para lhes antecipar dividendos que ainda não tinham sido ganhos, hão-se estar muito satisfeitas.
Brindemos pois à família!