A escrita da História

Filipe Diniz

A ideia de que «a História é escrita pelos vencedores» é acertada, desde que se tenha em conta que toda a história é provisória. Os acontecimentos na Ucrânia têm ajudado alguns a chamar a atenção para uma significativa situação: a raiz da evidente dificuldade ocidental entender objectivamente «o outro lado, os russos».

Tanto a historiografia ocidental dominante como Hollywood ajudaram nisso, obliterando sistematicamente a Grande Guerra Patriótica e o papel determinante da URSS na derrota do nazi-fascismo.

Parte da responsabilidade desta distorção resulta, não de uma história escrita pelos vencedores, mas de uma história escrita por vencidos: generais alemães nazis que norte-americanos e britânicos arrebanharam no final da guerra. Escreveram a história que convinha aos seus novos patrões, atribuindo a derrota, não ao Exército Vermelho, mas a três esotéricas causas: «Hitler não deixara os generais fazerem o seu trabalho; estava muito frio; os efectivos soviéticos eram inextinguíveis». E assim ficou, em muitas cabeças ocidentais até hoje (é elucidativo, por exemplo, ver o que a Wikipédia escreve sobre o assunto).

Estes vencidos não o foram por muito tempo. Nos EUA, na Grã-Bretanha ou na RFA, numerosos figurões nazis foram reintegrados. A NATO foi uma casa para eles. Por exemplo: Adolf Heisinger, o responsável pelo planeamento da Operação Barbarossa, chegou a presidente do comité militar da NATO em Washington. Não foram apenas indivíduos que foram reintegrados, foram-no o essencial das concepções e da visão do mundo a que tinham dedicado toda a vida. E isso ajuda a entender boa parte dos alinhamentos do presente.

A Rússia de hoje nada tem a ver com a URSS. Mas o seu povo mantém viva a memória e a herança da Grande Guerra Patriótica. E chegará o tempo em que retome a ideia de que a defesa da pátria e a do socialismo são inseparáveis.




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