A greve dos intérpretes
O princípio do multilinguismo nas instituições da União Europeia (UE) inclui o direito que os deputados do Parlamento Europeu (PE) têm de se expressar na sua língua materna, se esta for uma das 24 línguas oficiais da UE, e de ter acesso às intervenções de outrem e à documentação produzida nessa mesma língua.
Para o PCP, é fundamental respeitar todas as línguas. Por essa razão, é fundamental que os deputados possam trabalhar na sua língua. E, para isso, é preciso dar condições dignas aos trabalhadores que possibilitam esse direito: tradutores e intérpretes. Nesse sentido, por diversas vezes questionámos e dirigimos cartas à Presidência do PE e/ou à Comissão Europeia sobre as suas condições de trabalho; anualmente, na discussão do orçamento, temos proposto mais verbas para a interpretação e tradução; manifestamos coerentemente a nossa discordância quando, nas reuniões em que participamos (de comissões parlamentares, de relatores-sombras, de audições), não há interpretação em português; defendemos sempre a possibilidade de apresentação de alterações a relatórios na nossa língua materna. O multilinguismo e a defesa do português assumem-se, exercendo-os, ou seja, intervindo sempre em português!
Desde Junho passado, com o retorno ao trabalho presencial, voltaram as regras anteriores à pandemia. Mas não para todos! Os intérpretes, que durante a COVID-19 tiveram de adaptar-se, trabalhando através de uma plataforma que ia sendo desenvolvida e melhorada mas que nunca tinha sido testada, sempre que haja intervenções à distância, têm de continuar a fazê-lo, sem que tenham sido discutidas novas regras. Esta decisão foi-lhes imposta e decidiram fazer greve, não interpretando intervenções feitas à distância. Exigem a discussão de novas regras já que 63% dos intérpretes apresentam sintomas de perda de audição ou danos auditivos devido às más condições de trabalho, argumentando que, através da dita plataforma, há normas internacionais relacionadas com a qualidade do som que não estão a ser cumpridas.
Perante a greve (circunscrita às intervenções remotas), o PE recorreu à contratação de intérpretes externos. Assim, uma instituição da UE, que tantas vezes se arvora em referência de conduta, desrespeita de forma flagrante os direitos e as condições de trabalho dos seus trabalhadores, e em particular o direito à greve, alinhando pelas piores - e ilegais - práticas que se conhecem a algumas empresas, procurando substituí-los por quem trabalhe tanto ou mais, ganhe menos e reclame menos! Um péssimo mas revelador e elucidativo exemplo!
Este inaceitável comportamento surge cinicamente acompanhado de uma invocação da defesa do multilinguismo, feita por quem, tantas vezes o desrespeitou e desrespeita. E, por isso mesmo, a greve dos intérpretes torna-se ainda mais justa e significativa!