Swaps: Liberalices e Liberalidades

Manuel Gouveia

Corria o ano de 2013, e o Conselho de Ministros, presidido por Pedro Passos Coelho, tomava a histórica decisão de demitir seis membros de Conselhos de Administração de Empresas Públicas. A razão? Terem contribuído para que o Estado Português perdesse mais de três mil milhões de euros ao contratarem swaps especulativas.

(Para quem já se esqueceu, as swaps são apostas, mais ou menos especulativas, construídas em torno da troca entre taxas de juro fixas e variáveis.)

Claro que a decisão do Governo se destinou a colocar uma pedra no assunto. Desde logo porque foi pagar as ditas apostas, transferindo milhares de milhões para os bancos, e assim recompensando a fraude1. Depois porque não quis apurar o grau de conhecimento e envolvimento dos sucessivos governos do PS, PSD e CDS, que era grande, até porque o PCP e as ORT vinham a denunciar a situação há anos e nada foi feito para prevenir a catástrofe. E porque a raiz do problema até residia numa dívida das empresas públicas completamente artificial, transferida de sucessivos Orçamentos de Estado por suborçamentação. Por fim, porque todos os gestores demitidos acabariam recolocados noutras funções, sem terem devolvido um euro do dinheiro público que perderam no casino.

A decisão, tomada o mês passado, de nomear um desses administradores, Pedro Bogas, para presidente da Carris, sob proposta do PSD com a cumplicidade do PS, veio recordar esta história. É muito significativo o silêncio absoluto que tal mereceu. Principalmente daqueles que todos os dias grunhem contra os (menores) apoios do Estado à TAP (para a salvar da maior crise mundial da aviação civil, não para pagar umas apostas).

1A bem do rigor, a última tranche, de mais de mil milhões de euros para o Santander, seria transferida já pelo Governo minoritário do PS, apesar do protesto do PCP.




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