Música celestial
Usa-se a expressão para sinalizar aquelas conversas que, ornamentadas de elegantes considerações, espremidas são, no essencial, ainda que repletas de promessas vazias, pouco mais que nada. Perceba-se o introito porque sendo de música que vamos falar, mais propriamente do Festival da Eurovisão (concedendo que é de música que o evento trata), a justificação ganha algum sentido.
A Ucrânia ganhou o Festival! Não sei se o que deva surpreender é o facto em si, género de crónica anunciada, ou a hipócrita construção de um suspense para a apresentar como coisa não pré-fabricada. Não se vê onde está a surpresa. Diga-se, em nome da justiça, que o festival está transformado num acto político ainda que musicado, repleto de fumos e jogos de luzes, uma chusma de figurantes e dançarinos. Um Festival atrelado ao que a agenda de dominação mediática e ideológica dele espera. Bastava rebobinar o filme para encontrar em 2016, dois anos após o golpe de extrema direta na Ucrânia, igual resultado com esse «1944» de exaltação anti-soviética dedicado à Crimeia.
Bem pode o comediante Zelenski falar de «conquista europeia da musica ucraniana». A vitória estava pré-anunciada muito para lá do que ali se cantava. Fosse qual fosse o grupo, a letra ou a música, estava escrito nas estrelas que assim seria. Mesmo que em vez da «Kaluch orchsetra» a Ucrânia tivesse enviado para Turim um grupo de jumentos a zurrar ou um par de Azovistas, a recitar letras banderistas, acompanhadas do rufar de tambores de guerra, a vitória já lá cantava.
O resto são adornos: quer a miríade de jornalistas e comentadores que acompanharam o festival cultivando um suspense que de todo sabiam não existir, entretendo as audiências nacionais com umas considerações quanto a música; a confrangedora ilusão de um público eleitor que votou sem dar conta que se limitou a accionar o botão ou a tecla que os centros de dominação da guerra os induziu a fazer.