Que desporto temos? Que desporto queremos?

António Melo de Carvalho

Não é verdade que Portugal obteve, em 2020, a sua melhor classificação olímpica de sempre

A referência ao 23.º lugar alcançado pela equipa olímpica portuguesa nos Jogos Olímpicos de 1984 provocou alguns comentários pouco abonatórios, especialmente de alguns que continuam a considerar a prestação de Portugal nos últimos Jogos de Tóquio como a melhor de sempre. Por isso, convém aprofundar um pouco mais esta questão.

Antes de tudo, é indispensável tomar plena consciência de que a extraordinária campanha informativa dos média, manifestando uma unanimidade inesperada, tem qualquer coisa de estranho. Pode, inclusive, falar-se de autêntico delírio, que chegou ao ponto de um comentador afirmar que o valor da equipa portuguesa era superior ao das equipas dos EUA e da China, por que a relação do número de medalhas per capita em relação à população de cada país, ser favorável a Portugal.

Em Portugal, que seja do nosso conhecimento, não existe nenhum trabalho suficientemente sólido, ou seja, que ultrapasse a simples emissão de puras opiniões, dedicado à avaliação da situação desportiva do País, o que, em si mesmo, já constitui um indicador de atraso. Por outro lado, tem sido sempre a monomania das medalhas que tem constituído a preocupação dominante.

O ponto de vista aqui adoptado utiliza o número de medalhas, como é hábito, mas assenta sobretudo num processo comparativo da evolução das classificações obtidas pelo grupo de países europeus, que em termos potenciais, referidos à população de cada um, podem considerar-se os nossos adversários directos.

Desta forma, organiza-se uma espécie de mini-campeonato entre 10 países, tomando em consideração as classificações que obtiveram nas diversas edições de Jogos Olímpicos em que Portugal participou de forma significativa (os Jogos não sinalizados são aqueles em que não medalhou).

 

 

1936

1948

1952

1976

1984

1988

1992

1996

2000

2004

2008

2012

2016

2020

 

Class.

Pop

Áustria

11

21

32

37

22

29

41

57

32

27

64

-

78

53

326

5

9,8

Bélgica

29

14

14

28

21

44

44

31

55

51

37

64

35

29

161

7

11,5

Dinamarca

23

10

15

24

27

23

30

19

30

34

30

30

28

25

206

6

5,7

Finlândia

5

6

8

11

15

25

29

40

31

61

44

66

78

85

472

3

5,5

Grécia

-

-

-

-

30

46

26

16

17

15

60

77

26

36

121

5

10,4

Irlanda

-

-

34

33

32

28

64

64

65

41

64

39

35

39

35

8

4,9

Noruega

18

19

10

21

28

21

22

30

19

17

22

34

74

20

528

2

5,4

Portugal

30

26

40

30

23

29

-

47

69

60

47

75

79

56

28

9

10,3

Suécia

7

2

4

12

16

32

27

29

18

19

56

37

29

23

661

1

10

Suíça

16

9

11

20

26

33

37

18

37

46

34

33

24

24

358

4

8,6

 

Este quadro mostra as classificações obtidas pelos 10 países escolhidos de acordo com o critério da proximidade em população, ainda que alguns apresentem um número bem inferior (Irlanda, Noruega, Finlândia, Dinamarca), na coluna mais à direita. Nas duas colunas imediatamente a seguir à sua esquerda, encontra-se a classificação obtida pelo número de medalhas conquistadas por cada um dos países em todas as edições dos Jogos Olímpicos em que participaram. Em seguida, encontram-se as classificações alcançadas nas edições dos Jogos em que Portugal integrou a classificação tradicional por medalhas.

Trata-se de um critério tão discutível como qualquer outro e o leitor retirará as conclusões que lhe parecerem mais adequadas. Pela nossa parte, extraímos as seguintes:

- Portugal alcançou melhores classificações relativamente àquela que obteve (56.ª) nos Jogos de 2021, em oito vezes (1936,1948,1952,1976,1984,1988,1996,2008);

- A partir de 1996, Portugal piora a sua classificação, com excepção de 2008;

- Em 2008, só cinco dos países considerados ficaram à sua frente. Em 2020, todos ficam com melhor classificação, à excepção da Finlândia, que é um caso muito estranho.

Anexos:



Mais artigos de: Argumentos

Mas as Crianças, senhores!…

De modo nenhum será de estranhar que os diversos canais de TV, isto é, os diversos operadores de televisão, se esforcem por atrair e fixar audiências, pois bem se sabe que do volume de telespectadores captados decorre a sua própria capacidade de captarem contratos de publicidade, isto é, receitas, o peculiar oxigénio que...