Américo Leal nasceu há 100 anos

Américo Lázaro Leal faria hoje, 20 de Janeiro de 2022, 100 anos. Destes, 77 foram de empenhada militância comunista: preso político, resistente clandestino, construtor de Abril, assim foi este sineense falecido há poucos meses, aos 99 anos.

A vida de Américo Leal confunde-se com a do Partido

A vida de Américo Leal, como a de muitos outros jovens da sua geração, está desde muito cedo ligada ao trabalho industrial: aos 12 anos, após ter ficado órfão, já trabalhava como operário corticeiro. A consciência de classe, adquirida na fábrica e na vivência na sua Sines natal – terra de pescadores, conserveiros e corticeiros – levou-o a participar nas grandes greves de Julho e Agosto de 1943, que mobilizaram milhares de trabalhadores e abalaram o fascismo.

A opressão fascista, a Guerra Civil e a intervenção nazi-fascista em Espanha e a Segunda Guerra Mundial desenvolveram no jovem Américo Leal uma sólida consciência política. Ainda em Agosto desse ano de 1943 conheceu a prisão pela primeira vez: capturado à saída da embaixada britânica, onde fora com o intuito de se alistar nas forças aliadas, fica 45 dias no Aljube. Aí conheceu Militão Ribeiro, que o liga ao Partido.

Integrado na organização do Partido, Américo Leal assumiu de imediato tarefas na indústria corticeira e na direcção regional do Alentejo Litoral. Integrou o Comité Nacional da Cortiça, composto inicialmente por corticeiros do Barreiro, Évora, Silves e Sines. No final de 1945, estava na delegação de corticeiros que expôs ao Governo a necessidade de um acordo colectivo de trabalho, que acabaria por ser conquistado em 1947. Nestes anos, fez também parte da comissão local do Movimento de Unidade Democrática, o MUD.

Dedicação a toda a prova

Depois de uma jornada de propaganda em Sines ter colocado a GNR no seu encalço, Américo Leal passou à clandestinidade em 1947, juntamente com a sua companheira Sisaltina Santos, com quem tinha casado no ano anterior, e com o filho Joaquim, ainda bebé.

Durante os 27 anos em que esteve na clandestinidade assumiu diferentes tarefas em várias regiões do País: Ermidas-Sado e Algarve (1947); aparelho de distribuição nacional (1948); Beira Alta e Beira Baixa (1949); Margem Sul do Tejo (1950); Baixo Alentejo (1951-52); Direcção Regional da Margem Sul (1953); Direcção Regional de Lisboa (1953-54); Direcção Regional do Norte e tarefas técnicas (1954-74). Cooptado para o Comité Central em 1954, aí se manteve até ao XII Congresso, realizado em 1988.

Se esta extensa lista é já de si reveladora de uma actividade revolucionária intensa, ela não mostra tudo, pois por detrás de cada uma dela ocultam-se milhares de reuniões, encontros e lutas, apertadas regras conspirativas e constantes riscos de prisão. Tudo isto enfrentou Américo Leal com a determinação e a confiança que manteve até ao último dia da sua vida.

Construtor de Abril

A Revolução de Abril encontra Américo Leal no Porto, onde permaneceu por mais uns dias, clandestino, até que a situação se clarificasse. Dias depois do 1.º de Maio, ao regressar a Sines com a companheira, foi recebido em apoteose, num efusivo reconhecimento popular por uma vida dedicada à luta contra o fascismo, finalmente derrubado.

Nas novas condições da revolução e da legalidade, Américo Leal assumiu responsabilidades nas organizações concelhias do sul do distrito de Setúbal, passando a integrar a Direcção da Organização Regional de Setúbal, a que pertenceu até 2015. Teve um papel destacado na conquista e defesa da Reforma Agrária, em particular no Litoral Alentejano. Foi deputado à Assembleia Constituinte e nas duas primeiras legislaturas da Assembleia da República, sempre eleito pelo distrito de Setúbal.

Dedicou-se ainda – de corpo inteiro, como era seu hábito – à União de Resistentes Antifascistas Portugueses, participando em debates e reuniões sobre a luta antifascista e a Revolução, sobretudo em escolas junto dos jovens. Como activista da Comissão de Utentes da Linha do Sado, contribuiu para a defesa do serviço público ferroviário e da electrificação da linha.

Escreveu três livros, em que conta parte daquilo que aprendeu e viveu enquanto dirigente e militante comunista: O rosto da Reforma Agrária e O Vale do Sado no Mundo de dois opostos, editados pelas Edições Avante!, e Quem somos! - Testemunhos, edição de autor.

Numa entrevista ao Avante!, em 2016, Américo Leal deixava a «receita» para o futuro do Partido, que sabia assegurado: bastava que todos os militantes dessem ao Partido aquilo que pudessem, e a cada dia um pouco mais. Foi o que ele próprio fez, ao longo de mais de sete décadas!



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