Josephine Baker e a Tribo Arco-Íris

Nuno Gomes dos Santos

Josephine Baker participou na Resistência francesa contra a ocupação nazi-fascista

Chamavam-lhe Vénus Negra, Pérola Negra ou Deusa Crioula, atribuiu-se a si própria o nome de Josephine Baker e, na realidade, era Freda Josephine McDonald, nascida em Saint Louis (Louisiana, EUA) em 1906 e falecida em Paris em 1975. Foi «a primeira grande estrela negra das artes cénicas» e isso, por si só, já lhe valeria um enorme aplauso, se tivermos em conta a forma como a cor da pele marcava, ao tempo (ainda agora se vê disso por aí…), a vida e o quotidiano das pessoas nos Estados Unidos da América. Mas Josephine Baker foi muito mais do que isso.

Foi para Paris e passou a ter dois amores (J’ai Deux Amours, como cantou): a sua terra e a capital francesa, onde chegou ao topo como artista, representando, dançando, cantando e sendo activista dos direitos humanos e, por isso, figura importante da Resistência francesa durante a II Guerra Mundial. Os seus restos mortais foram recentemente (46 anos depois do seu falecimento) depositados no Panthéon francês e, na cerimónia que encenou a trasladação, foi recordada (pelo Presidente francês) a sua vida de artista e cidadã, desde a sua infância discriminada à glória como mulher do espectáculo (como exemplo, foi a primeira actriz principal negra num grande filme, Zouzou, de Marc Allégret, ao lado de Jean Gabin), passando pela sua participação na Marcha Sobre Washington, com Martin Luther King e pelo seu papel na Resistência, que lhe valeu o grau de Cavaleiro da Legião de Honra com que foi agraciada por De Gaulle, tendo ainda sido condecorada com a Cruz de Guerra das Forças Armadas Francesas e com a Medalha da Resistência.

A «tribo»

A sua carreira começou na rua, dançando. Participou depois em vários espectáculos que, desde Saint Louis, a levaram à Broadway. Foram os primeiros passos da emancipação de uma miúda/mulher negra e pobre, nos EUA, que já tinha sido obrigada a casar, contra sua vontade, duas vezes. Mais tarde, saindo para Paris, a sua carreira caminhou rapidamente para o sucesso. Era a altura da actriz francesa Mistinguett se distinguir no palco, reclamando a liberdade do corpo, o que Baker também fez e de forma mais ousada, sendo a americana uma actriz mais popular e a francesa mais elitista.

Veio a Segunda Grande Guerra e a sua postura granjeou-lhe, em França, mais respeito do que na sua própria terra. Foi resistente. Acolheu em sua casa resistentes e refugiados, alguns dos quais fez passar por elementos da sua banda. Nos seus espectáculos onde estavam espectadores alemães, oficiais nazis, tomava notas e ía colhendo informações, que escrevia, com tinta invisível, nas suas partituras, que passavam fronteiras escondidas entre a sua roupa íntima e chegavam até aos Aliados. Arriscou a vida, como feminista, anti-racista e antinazi.

Dos filmes em que participou e para além do referido Zouzou (1934), nomeamos, como exemplo, A Sereia dos Trópicos (1927), Moulin Rouge (1941) ou Fausse Alerte (1945). Das suas canções lembramos a já citada J’ai Deux Amours, provavelmente a mais célebre canção que interpretou e ainda Quando, Quando, Quando, Si J’était Blanche, Besame Mucho, Blue Skies ou Where’d You Get Those Eyes.

Teve uma vida preenchida. Adoptou 12 órfãos de várias etnias e, a essa família (um coreano, franceses, uma costa-marfinense, um finlandês, um canadiano, um argelino, uma marroquina, uma venezuelana…) chamava «tribo arco-íris», uma «comunidade internacional» que simbolizava o mundo de paz e concórdia pelo qual Josephine Baker sempre lutou.



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