Em fuga

Correia da Fonseca

Transmitido pela RTP2 já muito para lá da meia-noite, na verdade até para lá da primeira hora da madrugada da passada terça-feira, o documentário «Debaixo do Céu», realizado por Nicholas Oulman, permitiu-nos algum regresso à primeira metade da década de 40 do passado século, quando a Segunda Guerra Mundial rugia por essa Europa fora então dominada pela besta nazi. «Debaixo do Céu» falou-nos dos milhares de europeus que vindos da fronteira franco-espanhola se dirigiram para o nosso país com o objectivo de poderem escapar para os Estados Unidos ou, como alternativa menos sedutora, para a Grã-Bretanha então assediada e sob risco de assalto germânico, e alguns terão ficado por cá. Seriam sobretudo judeus, tal como aliás é de origem judaica o seu realizador Nicholas Oulman, pois bem se sabe que os judeus tinham especial razão para fugirem da ameaça nazi, mas é claro que muitos tinham outras razões para evitarem a gente de Hitler. De uns e de outros nos falou, pois, o «Debaixo do Céu» transmitido a horas tão pouco propícias a uma larga audiência.

Com um peculiar estilo

De caminho, digamos assim, o telefilme falou-nos do Portugal desses anos, e não poderíamos dizer com verdade que o nosso país era então uma espécie de paraíso possível: bem sabemos, e não o poderemos esquecer, que a PIDE prosseguia a sua incansável caça dos opositores ao regime, todos eles global e indiferenciadamente suspeitos de serem comunistas, e que a tortura dos presos políticos era uma sinistra regra geral. Mas «Debaixo do Céu» focou-se especialmente no compreensível alívio que decerto terá sido o sentimento dominante nos refugiados vindos da Europa e em rota para outros lugares onde o nazifascismo não dominava. Realizado por um judeu, o telefilme reflecte compreensivelmente o sentimento de judeus em risco e em fuga dos que tinham por objectivo serem os seus carrascos. Passariam anos, décadas, antes que o povo judaico se tornasse, também ele, opressor e carrasco nos territórios do Médio Oriente, mas essa haveria de ser uma outra estória, uma outra História que «Debaixo do Céu» não se dispunha a contar-nos. O telefilme ficou, assim, por um mítico entendimento do Portugal dos anos 40 como sendo um perfeito lugar de paz: sabendo nós agora o que aconteceu a milhões de judeus caídos nas mãos dos nazis, podemos entender como o nosso céu português foi uma bênção para os que por aqui puderam escapar. Sem nos esquecermos, porém e de qualquer modo, que também por cá a besta nazifascista mandava, ainda que com um seu peculiar estilo que não seria matéria para este documentário.



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