Povo sudanês não desiste de lutar

Carlos Lopes Pereira

Abd al-Moneim Mohamed Ali foi abatido a tiro pelas forças policiais, em Omdurman, cidade gémea de Cartum, quando se manifestava contra a junta militar no Sudão. De acordo com fontes médicas sudanesas, pelo menos 45 pessoas morreram e centenas ficaram feridas na repressão aos protestos populares contra o golpe militar de 25 de Outubro.

Nesse golpe, os militares sudaneses – liderados pelo general Abdel Fattah al-Buran –, dissolveram o governo de transição e prenderam o primeiro-ministro Abdalla Hamdok mas, ao fim de um mês, pressionados pelo Ocidente, reinstalaram-no no poder e assinaram com ele um acordo, interrompendo o processo de transição que conduziria em 2022 a eleições.

No domingo, 19, dois dias antes do assassinato de Mohamed Ali, dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas da capital e de outras cidades como Omdurman, Madani e Porto Sudão, exigindo uma governação civil e democrática. Os manifestantes celebravam assim, com luta nas ruas, o terceiro aniversário do início da Revolução de Dezembro, que forçou em 2019 os militares a depor o presidente Omar al-Bashir e reivindica profundas transformações sociais no país africano.

Estes combates do povo e dos corajosos revolucionários do Sudão têm lugar num contexto regional de enorme complexidade, resultado de permanentes ingerências estrangeiras.

Na fronteira sudeste sudanesa, a Etiópia enfrenta uma sangrenta guerra de agressão, que faz perigar a unidade do seu Estado e é perpetrada por grupos secessionistas apoiados pelos Estados Unidos da América e pela União Europeia, apesar dos seus frequentes apelos à paz e concórdia.

A sul e sudoeste, o Sudão do Sul continua instável e a República Centro-Africana é dilacerada por guerras intestinas, alimentadas também do exterior.

A ocidente, o Chade, governado por uma junta de generais golpistas, é um dos principais aliados da França, que intervém militarmente nesse e em outros países do Sahel – Mali, Níger, Burkina Faso e Mauritânia –, a pretexto do combate ao terrorismo, sendo certo que as acções jihadistas aumentaram e alastraram com a presença das tropas francesas, que gozam do apoio dos EUA, e dos assessores e instrutores da União Europeia. Paris pretende agora reduzir em 2022 os efectivos da Operação Barkhane, de cinco para três mil efectivos e apostar em forças especiais de diversos países europeus. Além dos reveses militares, sucedem-se nos últimos tempos, no Mali, no Níger e no Burkina Faso, manifestações populares contra a intervenção francesa no Sahel, que não trouxe a paz, antes agravou a guerra com os seus milhares de mortos e deslocados, com a destruição provocada.

Enfim, a noroeste, o Sudão faz fronteira com a Líbia, cujo Estado foi destruído há uma década pela agressão militar dos EUA e de membros da NATO. Agora, as mesmas forças que provocaram o caos líbio pretendem, a coberto das Nações Unidas, levar a cabo no país eleições «livres», marcadas para o dia 24.

Um bom exemplo da «democracia» que os EUA querem impor, do Sudão à Líbia, e em todo o mundo.




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