João Abel Manta: A Máquina das Imagens

Manuel Augusto Araújo

A exposição revisita a obra gráfica de João Abel Manta e está patente até 16 de Janeiro no Palácio da Cidadela de Cascais

Ver ou rever a obra gráfica de João Abel Manta na exposição João Abel Manta: A Máquina das Imagens (a partir do título de um artigo de José Luís Porfírio, de 1992) é ser-se confrontado com o poder das imagens em centenas de desenhos, cartoons, ilustrações, design gráfico – algumas das obras expostas ainda eram inéditas –, que evidenciam o lugar único de um artista de excepção, não só nessa área mas em todas as outras das artes visuais, com um saber e conhecimento técnico que domina sem qualquer cedência a maneirismos e que aqui transpõe para o papel a realidade, as realidades filtradas por uma inteligência cortante e subtil ancorada uma vasta e sempre actualizada cultura.

João Abel Manta é tão capaz de radiografar à velocidade do pensamento o que estava a acontecer no período acelerado que Portugal viveu entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro como demoradamente refletir sobre os quase cinquenta anos de fascismo salazarista expondo a violência ditatorial, não só a mais evidente mas a que se introduzia no tecido social, cultural e histórico de um país assolado por uma pandemia que se queria mentalmente paralisante. É implacável a violência com que retrata as imposturas dos tempos da ditadura nas Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, uma barreira de coral intransponível para os que se afadigam a tentar rever a história reduzindo-os a uma absoluta insignificância.

É um impiedoso cartógrafo que nos obriga a ser acareados com as evidências, recusando os facilitismos das ironias ou dos sarcasmos para que os mapas que traça com detalhes que desassossegam não permitam leituras fáceis ou distraídas. Cada desenho, cada cartaz, cada cartoon é um ensaio crítico que adquire peso específico próprio e lhe confere intemporalidade. Esse é o traço fino e distintivo do seu trabalho de designer gráfico, desde o primeiro publicado na revista de Arquitectura aos que se seguiram no Almanaque ou no suplemento literário do Diário de Lisboa ou nas ilustrações do Dinossauro Excelentíssimo, personagem que criou em parceria com José Cardoso Pires em que se retratava sem clemência Salazar-o-Botas, parceria que continuou no Burro em pé, uma peregrinação pelas comarcas de Portugal em demanda dessa personagem difusa mas muito popular por essas paragens.

É sempre com olhar feroz que açoita a moral marialva ou as misérias dos burgueses, sejam grandes ou pequenos, os anacronismos virais do pensamento de baixa velocidade de circulação do provincianismo. Nada escapa à sofisticada rede com que João Abel Manta peneira o universo com o bisturi carregado de tinta da china que tanto desenha com humanismo extremo os retratos de José Dias Coelho, Bento de Jesus Caraça ou Fernando Lopes-Graça, como faz leituras críticas de finíssimo recorte de Shakespeare e nos Diálogos Confidenciais, ou sacode virando do avesso e zurzindo sem contemplações a má-literatura, a má pintura, a má arquitectura, a má política.

João Abel Manta: A Máquina das Imagens é mais extensa exposição do seu trabalho gráfico, tanto de obras únicas como de séries temáticas, que se pode e deve visitar no Palácio da Cidadela de Cascais – até 16 de Janeiro – que, mais uma vez, mostra a excelência do trabalho deste artista que ocupa um merecidíssimo lugar no panteão dos maiores designers gráficos e ilustradores de todo o mundo.




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