Algumas hipocrisias muito democráticas

Joel Moriano

As constantes contradições, avanços e recuos, ou as supostas boas intenções no papel e os péssimos resultados na prática já não surpreendem quando vindas da UE. No entanto, continua a haver espaço para a consternação e estupefação com a persistente falta de vergonha que vem de Bruxelas e que habita nas suas instituições.

Na sessão plenária do Parlamento Europeu desta semana foi discutido e votado um relatório (não legislativo) da Comissão do Emprego e Assuntos Sociais sobre a «Democracia no Trabalho». Esta obra muito bem pensada e delineada, apesar da justeza da maioria do seu conteúdo, enferma da mais profunda hipocrisia.

Aqueles que promoveram e incentivaram as políticas de terra queimada, mais antissociais e antilaborais de que há memória nas últimas décadas, vêm agora dizer que é necessário e imprescindível ouvir e informar os trabalhadores. Estranhamente (ou não) não partilhavam desta ideia aquando da sua cumplicidade activa com a destruição de milhares de postos de trabalho, a promoção da deslocalização e encerramento de empresas, quando contribuíram para a proliferação da precariedade na lei, no trabalho e na vida de milhares de trabalhadores nas últimas décadas.

Aqueles que agora nos dizem, hipocritamente, que os Estados devem eliminar qualquer legislação que dificulte a contratação colectiva e que, até 2030, 90% dos trabalhadores devem estar por ela abrangidos, são os mesmos que impuseram (ou foram ativos cúmplices dessa imposição) as maiores limitações à negociação e contratação colectivas em Portugal, promovendo uma ainda maior fragilização da posição dos trabalhadores nos processos negociais, o bloqueio e caducidade da contratação colectiva e a consequente diminuição da sua cobertura e abrangência.

O que eles não dizem, porque a hipocrisia e a falta de vergonha não chegam a tanto, é que para uma real democracia no local de trabalho é necessário respeitar e valorizar os trabalhadores e os seus direitos, valorizar e dignificar os salários, promover a contratação colectiva no sentido do progresso social e não do retrocesso de direitos e garantias.

O que eles não dizem, mas os trabalhadores portugueses sabem de sobra, é que só com a sua luta e a sua organização se defendem e conquistam direitos, se combatem os mais vis ataques às suas condições de vida e de trabalho, tantos deles perpetrados por aqueles que agora supostamente se levantam em sua defesa.

Eles não mudaram de opinião. Apenas procuram branquear a sua acção, enquanto ganham fôlego para desferirem os próximos ataques.

Os deputados do PCP no Parlamento Europeu estarão, como sempre estiveram, na primeira linha de defesa dos interesses e aspirações dos trabalhadores portugueses e no apoio às suas justas lutas e reivindicações.




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