Eles, nós
Não é que a televisão tenha o hábito de nos falar deles. Dos portugueses pobres que, ao que consta e de acordo com critérios contabilísticos não muito esclarecidos, serão cerca de dois milhões, número de modo nenhum irrelevante. De qualquer modo, não o discutamos. Mas o que aqui traz agora esse número é o facto de a televisão nos ter informado recentemente que a pandemia que agora nos ronda e assalta acrescentou mais três mil compatriotas ao número já impressionante mas muito esquecido de portugueses «tecnicamente» pobres, um total de cerca de dois milhões em contas redondas e tristes. Quase na mesma altura, também a televisão nos disse que trinta por cento dos trabalhadores portugueses são pagos com o salário mínimo que, como amargamente se sabe, é mesmo mínimo. E aqui temos, pois, como dados que chegam com o ar de serem assépticos se assumem de carne-e-osso, obviamente mais osso que carne, e também explicam o tal acréscimo de três mil compatriotas pobres.
Amargo
Dispensemo-nos de tecer considerações óbvias sobre esse elevado número relacionando-o com o seu montante (que cresce mais um poucochinho em Janeiro próximo, como a televisão nos vem informando no tom de quem traz uma excelente notícia), para reflectirmos um pouco sobre o outro número: mais três mil portugueses pobres por obra e graça da pandemia. Temos assim o que bem podemos acolher como notícias de uma realidade triste e para muitos decerto dramática: bem frágil seria decerto a situação salarial/financeira desses portugueses para que a pandemia tenha acrescentado mais três mil ao angustiante rol de perto de dois milhões de compatriotas que por triste direito próprio entram na condição técnica de pobres. Para nossa mais completa informação a televisão acrescenta, lá por palavras dela, que a culpa é da pandemia; mas ela, a pandemia, goza de uma espécie de estatuto de impunidade: existe, veio não sabemos bem de onde, mas não tem obrigações de solidariedade ou justiça social, limita-se a acontecer e a matar. Restará talvez saber mais alguma coisa: por exemplo, se portugueses pobres, alguns de entre os tais três mil que a TV referiu, não viverão em condições que os tornem mais vulneráveis. Se poderão ter o mesmo desembaraço para irem às farmácias que os portugueses não pobres, digamos assim, ou se o temporário recolhimento no domicílio é uma alternativa ao alcance de quaisquer. Não, bem sabe, que a pandemia consulta a declaração de IRS dos cidadãos antes de atacar. Mas em tempos de epidemia, quando a prudência aconselha cuidados, não é fácil que desliguemos os riscos de doença e a desenvoltura na vida quotidiana; designadamente que não pensemos na forçada exposição em certos locais de trabalho que só alguns podem dar-se ao luxo de evitar. É amargo pensar que a prevenção perante uma pandemia possa surgir quase como um privilégio. Mas acontece ser assim. Mais ainda em sociedades que pouco se importem com isso.