A falta de respect (com um aceno a Aretha Franklin)

Nuno Gomes dos Santos

Aretha Franklin era uma mulher negra e militante anti-racista

Uma grande campanha, a nível mundial, condena veementemente o racismo e a xenofobia, nomeadamente no desporto. Nela dão a cara vários jogadores de futebol que todos conhecem e outros desportistas de nomeada. «Não ao racismo» é a frase da campanha. Isto passa-se agora, no século XXI, e prova, essencialmente, duas coisas: que há uma generalizada condenação das atitudes racistas, ao mais alto nível e que, se se sente necessidade de combater o racismo, é porque ele existe e tem peso, caso contrário não seria preciso esse combate.

Há, porém, quem, ligado ao futebol e com cargo de responsabilidade, relativa embora, não dê ouvidos aos conselhos de Cristiano Ronaldo, Messi e seus pares e, por via dos maus resultados obtidos pela equipa representativa do clube de que é presidente, diga coisas deploráveis (pelo menos) contra «esses pretos e brasileiros» que alinham na equipa principal da «sua» agremiação.

Solidário com esses trabalhadores do chuto na bola, o treinador do clube não só se demitiu como se sentiu na obrigação de denunciar a situação e, sem medos nem meias medidas, descreveu à comunicação social o que se passava, chamando os bois pelos nomes. E o que se passava era, e é, uma vergonha, uma discriminação, uma desumanidade, um crime.

Não nos compete prosseguirmos este escrito abordando a «emigração ilegal e o tráfico de seres humanos no Campeonato de Portugal» (dos jornais). Apenas nos juntamos àqueles que sugerem uma investigação aprofundada sobre esse problema. Mas apetece-nos lembrar, a propósito, uma mulher negra, defensora dos direitos das mulheres e da liberdade dos negros, amiga de Martin Luther King (cantou Take my Hand, Precious Lord no seu funeral). Refiro-me a Aretha Franklin (Memphis, Março de 1942 – Detroit, Agosto de 2018), «uma das maiores intérpretes vocais da história da música», segundo a revista Rolling Stone e o canal de televisão VH1, recordando aqui a magnífica canção Respect, original de Otis Reding e elevada a um grau superior na interpretação da «rainha do soul e do R&B (Rhythm and Blues)», como tantas vezes Aretha foi chamada.

Respect, na versão de Aretha Franklin, acaba de ser considerada pela Rolling Stone a primeira das 500 melhores músicas de sempre e fala dos direitos da mulher. Mas quem a canta é uma mulher negra, militante anti-racista e defensora de Angela Davis, também negra, comunista e lutadora pela igualdade entre brancos e negros, protagonista de um julgamento histórico de 18 meses, ao fim dos quais foi considerada inocente das acusações de «terrorismo» que o poder norte-americano lhe apontava. Aretha Franklin prontificou-se a pagar-lhe a caução e disse, sobre isso: «(Faço isto) porque ela é uma mulher negra e quer a liberdade para o povo negro. E foi o povo negro que me deu o dinheiro que tenho.»

Na canção I Dreamed a Dream (Eu Sonhei um Sonho. Luther King, no seu mais célebre discurso, disse I Have a Dream – «Eu tive um sonho»), Aretha Franklin aborda o tema de uma felicidade e de uma justiça que hão-de vir. Em certos casos estamos à espera disso, ainda. Por mim, apetece-me ir a uma terra da Sertã, onde mora um clube de futebol com um presidente xenófobo e racista, e lembrar-lhe o n.º 2 do artigo 13.º da Constituição Portuguesa, bem como a Lei n.º 93/2017, de 23 de Agosto, que refere o «combate à discriminação em razão de origem racial ou étnica, cor, nacionalidade, descendência e território de origem».

Ou seja: respect!




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