Não Come Nem Deixa Comer, de Lope de Vega
Lope de Vega foi o grande autor de comédias do Século de Ouro espanhol
O teatro e a poesia de Lope de Vega pertencem a um dos períodos mais fecundos da cultura espanhola, o Século de Ouro, com Cervantes, Vega e Calderon de la Barca como expoentes de um processo criativo que se estende do Renascimento ao Barroco, ou seja, entre os séculos XVI e XVII.
Lope de Vega foi o grande autor de comédias deste período, criando um estilo e renovando a forma da sua construção, rompendo com o classicismo aristotélico e a unidade de acção, tempo e espaço, que definiam a estética teatral aristotélica. O ensaio que publicou em 1609, Arte Nova de Fazer Comédias Neste Tempo, registava já as novas fórmulas que o dramaturgo iria impor ao seu teatro.
Não Come Nem Deixa Comer, que a Companhia de Teatro de Almada tem em cena no Teatro Joaquim Benite, baseada na peça O Cão do Hortelão, escrita por Lope de Vega entre 1613 e 1615, contém já os processos de construção do texto teatral que o autor definira no seu ensaio de 1609, e que iria influenciar os autores peninsulares, e até Molière não se terá alheado desta «revolução estética», dado que também ele rompe com a herança do classicismo grego.
Não Come Nem Deixa Comer, frase cujo sentido também existe em português, e numa variante de formulação mais grosseira, é uma comédia de enganos e recusas, de ambição e queda, em que os preconceitos de classe e o poder se sobrepõem ao desejo e à realização amorosa. Dir-se-ia que o texto de Lope de Vega, pelo que nele existe de recusa e manha nas relações amorosas, estabelece uma arguta observação, aguda e irónica, das fraquezas humanas, através de um enredo triangular, duas mulheres e um homem, polvilhado pelo pícaro e por uma série de situações verdadeiramente cómicas a partir de uma série de jogos de equívocos, sedução e ciúme.
Uma abastada condessa napolitana está apaixonada pelo secretário cujo, por sua vez, se perde de amores por uma das criadas da dama. Mas essa paixão de Teodoro tem os dias contados, dado que o sedutor/seduzido não se deixa arrastar por ela, vendo nos favores da condessa a sua possibilidade de ascensão social e esta, por seu turno, tudo fará para que essa paixão se dilua no vento. Neste jogo de seduções, libertinagem e caprichos, próprios da época (veja-se, por exemplo, a nossa poesia erótica e satírica dos séculos XVII/XVIII), os trunfos são só aparentes e as cartas são sempre enganadoras, como o destino quando não se torce a tempo.
Mas a condessa arde em ciúmes e desejo, não avança nem consente perder para outra o seu amado: Nem Come Nem Deixa Comer, tal como O Cão do Hortelão, e Teodoro desabafará por fim, vencido: «Certo que vossenhoria,/ perdoe-me se me atrevo,/ tem no juízo às vezes,/ que não no entendimento,/ mil lúcidos intervalos./ Pois coma, ou deixe comer,/ porque eu não me sustento/ de esperanças tão cansadas,/ que, senão, desde aqui, volto/a querer onde me querem.»
O génio de Lope de Vega reside não apenas no que escreveu mas na substância intemporal da matéria sobre a qual desenvolveu a sua arte de comediógrafo exemplar: os jogos perigosos entre amos e servos (o amor é um jogo perigoso), entre quem tem poder e o usa como soberba ou ultraje e quem, apesar das ambições, não perde o sentido da dignidade. Ou seja, os engenhosos, apesar dos seus desmandos e caprichos, nem sempre saem vencedores. Eis um dos sentidos, bem humorados, dos enganos da vida.
Uma Companhia, com o património histórico e a reconhecida qualidade da CTA atinge, com a produção deste texto de Lope de Vega, um dos seus mais altos patamares criativos. A começar na eficaz e admirável encenação de Ignacio Garcia, no belíssimo espaço cénico criado pelo talento de José Manuel Castanheira, na capacidade interpretativa de um grupo de excelentes actores, Margarida Vila-Nova, David Pereira Bastos, Teresa Gafeira, Vera Santana, Ana Cris, Diogo Bach e Leonor Alecrim, e todos os que ergueram, nessa «Cidade do Teatro» que é Almada este, a vários títulos, brilhante espectáculo.