O AUKUS e o massacre na Indonésia

Filipe Diniz

Entre 1965 e 1966 verificou-se na Indonésia um dos mais monstruosos massacres do século XX. O menor número de mortos estimado é de 500 mil, o total irá possivelmente além dos três milhões. Na sua esmagadora maioria camponeses de Java e Bali, comunistas ou simpatizantes do PKI (Partai Kommunis Indonesia). Durante muitas décadas procuraram estabelecer que a causa deste genocídio seria a luta pelo poder entre «militares e o PKI» – um partido «praticamente desarmado» – e que a condução do massacre pertencera ao exército indonésio e a «grupos de muçulmanos». Todavia, vem-se acumulando documentação que aponta para outros lados.

A mais recente vem de documentos desclassificados do Foreign Office. A Grã-Bretanha lançara uma ofensiva de propaganda contra o presidente Sukarno, que recusava integrar o processo neocolonial de constituição da Federação Malaia. O PKI apoiava-o. A campanha intensifica-se a partir de 1965. De Singapura é emitida uma autêntica barragem de «propaganda negra» anticomunista, obviamente acompanhada de outra acção conspirativa.

Uma provocação abriu o caminho ao massacre. Num discurso hitleriano, a propaganda negra reclamou a «eliminação para sempre do PKI e de tudo o que representa». «O país», diziam funcionários britânicos, estaria em risco «enquanto os dirigentes comunistas estivessem à solta e fosse permitido que os seus militantes de base permanecessem sem punição».

Obviamente que a depauperada Grã-Bretanha saída da guerra não preenchia já todas as condições para conduzir esta acção. Está documentado o fornecimento pelos EUA «de armamento, equipamento de comunicações, de listas de comunistas conhecidos». Entre 1958 e 1965, os EUA «treinaram, financiaram e aconselharam secretamente o Exército no sentido de o tornar um ‘estado dentro do Estado’». A Austrália desempenhou igualmente um relevante papel. GB e EUA, com apoio australiano, «realizaram operações clandestinas que apoiaram e encorajaram» os massacres. Deram inteira cobertura diplomática aos crimes, fizeram tudo para ocultar a sua escala.

Nos dias de hoje, três cúmplices deste crime monstruoso constituíram o AUKUS, um «pacto de segurança militar». A tragédia indonésia dos anos 60 ajuda a ilustrar o que pode estar em causa.




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