Badalar

Anabela Fino

Um sino muito especial soou por estes dias na sede da ONU. Doado pelo Japão em 1954 como símbolo de esperança, este sino, feito a partir de moedas doadas por pessoas de mais de 60 países, faz-se ouvir duas vezes por ano: no primeiro dia da Primavera e a 21 de Setembro, para celebrar o Dia Internacional da Paz.

A simbologia do toque de alerta casa bem com os discursos que personalidades e chefes de Estado e de governo escolheram para a ocasião, mas só alguém muito, mas muito distraído pode não dar conta de como soa a falso a bem oleada encenação montada em torno do tema escolhido para este ano: «Recuperar melhor para um mundo mais equitativo e sustentável».

Nas vésperas do conclave, EUA, Grã-Bretanha e Austrália deram a conhecer o pacto AUKUS (iniciais em inglês dos três países anglo-saxónicos), novo tratado de Defesa consubstanciado no imediato na venda de submarinos de propulsão nuclear à Austrália, frustrando um negócio apalavrado com a França e mergulhando Macron numa crise de nervos. Visto com mais um passo na guerra fria contra a China para tentar conter o seu crescente peso na política mundial e inviabilizar as suas reivindicações no Mar do Sul, o pacto representa uma ameaça que não pode ser ignorada.

Assim o entendeu Pequim, que reagiu de imediato sublinhando que o pacto «prejudica de forma grave a paz e estabilidade regionais, intensifica a corrida ao armamento e compromete os esforços internacionais sobre a não-proliferação nuclear». Mas o negócio está fechado.

E por falar em negócio, registe-se que boa parte dos que em Washington falam de paz a partir da tribuna da ONU andam num frenesim em feiras... de armamento. O pontapé de saída foi dado pela Polónia, com a 29.ª Mostra Internacional da Indústria de Defesa, a que se seguiu a Mostra Internacional de Defesa e Segurança (DSEI, sigla de Defense and Security Equipment International), há dias realizada em Londres, e até ao final do ano estão programadas mais de 40 feiras de armamentos um pouco por todo o mundo.

É o regresso em força do negócio das armas, após uma forçada contenção devido à COVID-19. Não há discurso pela paz que apague o facto de as despesas militares a nível mundial, em 2020, terem registado, apesar da pandemia, um aumento de 2,6% relativamente ao ano anterior, segundo revelou em Abril o Instituto Internacional de Estocolmo de Estudos para a Paz. O «regresso à normalidade» está garantido, não tendo sequer faltado em finais de Agosto as tradicionais exibições de poderio militar levadas a cabo pela Rússia e pela Turquia, a mostrar que neste jogo ninguém joga a feijões.

Numa mensagem publicada no Twitter, Guterres dizia que «temos de mudar de rumo, temos de acordar». Tem razão. O Sino da Paz não pode estar em silêncio. É hora de tocar a rebate.




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