Regresso

Correia da Fonseca

Acontece que Jorge Bergoglio, cidadão argentino, tem estado presente nesta coluna com relativa frequência, e isso não acontece por acaso nem sem alguma justificação: é que Jorge, de há uns tempos para cá mais conhecido por Francisco, é nem mais nem menos que o Papa, bispo de Roma e chefe da Igreja Católica. Para mais, Jorge ou Francisco não se tem mostrado um Papa como os outros ou, dizendo-o de outro modo, como é costume, embora isto de ser Papa como é costume também já não seja o que era. De qualquer modo, aqui volta ele hoje a ser assunto, e a culpa é dele, que em declarações recentes voltou a referir-se ao lucro em termos pouco lisonjeiros: equiparando-o a pecado, nem menos. É claro que não terá querido fazê-lo de um modo fulminante, mas quando se é nem menos que Papa até uma reticência pode ter valor próximo de uma condenação. Entende-se ou adivinha-se que no entendimento de Francisco a mera existência de lucro não seja motivo para entrada inevitável nos infernos, mas é claro que nas suas palavras há uma implícita advertência. E tratando-se de uma questão importante, decide intervir ou pelo menos advertir.

Esse e não qualquer outro

Francisco é não apenas o chefe de uma organização de dimensões verdadeiramente gigantescas, é-o também de uma força com poderio não apenas espiritual mas também social e regressa lançando sobre o lucro a suspeita pelo menos incómoda de poder ser pecaminoso. No plano da ciência económica não se trata de uma suspeita capaz de produzir grande mossa, mas será diferente no quadro das regras éticas em que estas questões gostam de se sentir colocadas embora com dificuldade. Aqui emerge, é claro, a questão fundamental de o lucro ter ou não legitimidade ética, dúvida que directamente se prende com a forma como é obtido: nas actividades económicas e financeiras onde, sobretudo se grande lucro, é gerado, não goza ele da reputação de ser sempre eticamente irrepreensível, sempre preocupado com a justa remuneração da mão-de-obra. É óbvio que aí se situa uma questão que, sendo ética, é radicalmente política, e aí temos Sua Santidade arrastado para o terreno da política. Contra sua vontade? Talvez não, talvez Francisco aceite esse arrastamento. Por saber que a política, na sua melhor condição, há-de ter a justiça social como seu objetivo: esse e não qualquer outro. O que explica as considerações de Francisco sobre o lucro, esse risco que se agrava e se transmuta em pecado quando não seja vigiado.




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