Bipolaridade associal

Manuel Gouveia

Em qualquer análise – mesmo a mais superficial - à realidade nacional e internacional deveria ser impossível não perceber a sua profunda bipolariedade.

Um polo está carregado de tintes negros: são os sucessivos despedimentos colectivos, os lay-off, as falências, os empréstimos atrasados, os despejos. São as anunciadas inevitabilidades, tão falsas quanto profusamente difundidas: a não sustentabilidade da segurança social, a necessidade de reduzir o défice das contas públicas através da redução do peso da administração pública, etc. É a corrupção, o amiguismo e o clientelismo, sempre ligados ao Estado e à Administração Pública, e nunca focando o corruptor, o poder económico capitalista. É o crescimento exponencial da precariedade, laboral mas sobretudo social, pois tudo é cada vez mais precário na vida de milhões de trabalhadores. São os preços a crescer incessantemente, nomeadamente dos combustíveis, mas também dos produtos de primeira necessidade, sem que a inflação dispare e sem que se questione que raios mede essa inflação.

No outro polo, tudo brilha num caleidoscópio colorido. São as bolsas a disparar e a atingir recordes. São os lucros das grandes empresas a amontarem-se uns sobre os outros. São os capitalistas promovidos a estrelas – os milionários – e a sua vida objecto de promoção e adoração. É o inventar de dinheiro, e as bolhas especulativas a crescerem em torno de nada ao som vibrante de marchas musicais. São os apartamentos a venderem-se por muitas centenas de milhar, os carros de luxo, os navios de recreio, os aviões particulares e agora até as naves espaciais privadas. Um mundo onde a unidade de moeda é o milhão de euros.

Na maioria dos casos os dois polos surgem-nos paralelos, como dois universos não relacionados, mas por vezes são-nos até apresentados em sequência linear, como no caso da Altice, que primeiro anuncia um crescimento de vendas e um recorde de receitas em 2020, para no mês seguinte disparar um despedimento colectivo devido à «necessidade» de reestruturar a sua actividade, para de imediato anunciar novos recordes com as receitas e lucros do primeiro semestre de 2021.

Isto está à vista de todos. Tal como na parábola, o rei vai nu pelo meio do povo, mas é preciso apontar o facto para que essa nudez se torne visível. Que implica, neste caso, apontar o óbvio, que estes dois polos resultam um do outro, não são dois mundos paralelos mas um mesmo mundo no seu movimento dialéctico. E procurar mostrar o menos óbvio mas igualmente fundamental: o inevitável antagonismo, a inevitável luta, e a não menos inevitável superação revolucionária.




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