Que desporto temos? Que desporto queremos?

A. Melo de Carvalho

A grande maioria da população é arredada de uma prática desportiva

Como toda a actividade humana, a prática do desporto produz resultados na vida das pessoas e das sociedades. Ao contrário daquilo que defende a concepção dominante do desporto de rendimento, esses resultados não são automaticamente positivos quer do ponto de vista individual, quer social. É importante compreender que o valor positivo ou negativo dessa prática depende das finalidades, objectivos e formas da concretização que a orientam. Em si mesmo, o desporto não é algo positivo ou negativo, especialmente em termos educativos e culturais. Na realidade, o desporto é uma construção social, e o seu valor é determinado pelas intenções, interesses e motivações dos seres humanos que actuam no interior das instituições que promovem a sua prática.

Esta constatação é dificilmente aceite pelos defensores de que «o desporto é só um», definindo-se por uma prática estruturalmente selectiva e altamente competitiva, visando a conquista da vitória, detectando os mais dotados através dos sucessivos patamares de apuramento, que estruturam a célebre pirâmide da prática. Esta, como bem se sabe, assume um carácter profundamente selectivo, eliminando nas suas diversas fases a grande maioria dos praticantes por não possuírem as capacidades indispensáveis para a expressão mais elevada da actividade motora, ou por não se adaptarem às exigências de uma situação que não responde às suas necessidades.

É importante compreender que existe um largo leque de formas possíveis de prática, respondendo a diferentes intenções e motivações. Este leque não exclui o alto rendimento desportivo, pois este constitui a única forma de resposta para desenvolver maximamente as capacidades daqueles que possuem as mais elevadas potencialidades. Aquilo que se põe em causa, é a visão de que esta forma de prática é a única que deve ser aceite socialmente, e posta em prática por todas as instituições que promovem o desporto, prejudicando profundamente aqueles que têm «menos jeito», ou não se revêem neste tipo de prática. O problema assume uma gravidade especialmente grave, em relação ao processo educativo. Mas, também para os trabalhadores essa gravidade não diminui, pois a prática desportiva devidamente orientada, constitui um importantíssimo factor de criação e manutenção de capacidades, garantindo uma maior longevidade e lutando contra as modernas doenças do trabalho. Todavia, facto paradoxal jamais tomado na devida conta, a própria formação dos praticantes do desporto de rendimento, sofre consequências graves por não se estruturar a educação desportiva precoce (não confundir com a especialização precoce que constitui o seu contrário), da generalidade da população juvenil no momento próprio e insubstituível.

Assim, a grande maioria da população é arredada de uma prática desportiva, que contudo, de uma forma também paradoxal, é considerada como automaticamente estruturante de valores essenciais para a saúde, a educação e o desenvolvimento integral das capacidades humanas.

Isto significa que a resolução do problema do atraso da difusão da prática desportiva, situação que coloca Portugal nos últimos lugares nas estatísticas internacionais que fornecem elementos sobre esta questão, não pode ser resolvida através de uma concepção que, na realidade, se mostra incapaz de responder às necessidades e motivações da larga maioria da população. Evidentemente que esta constatação assume uma importância decisiva em relação à juventude portuguesa, afinal, considerada, mais uma vez paradoxalmente, como o grupo social em que se devem criar hábitos de prática para toda a vida, e que mais precisa de uma actividade sistemática e devidamente orientada, como condição para o seu desenvolvimento pleno.

Perante este domínio «imperial» da definição de desporto de rendimento, é caso para se perguntar: quanto custa às gentes deste país e a ele próprio, em perda de praticantes desportivos para toda a vida, em termos de educação e de saúde, de construção e manutenção da força de trabalho, de integração social e afirmação do prestígio internacional, a exclusiva preocupação com a detecção dos presumíveis mais dotados, através da pirâmide tão celebrada, que promove a inexorável eliminação da grande maioria da população?

 

* Este é o um de uma série de textos, que publicaremos ao longo dos próximos meses




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