Exploração no turismo denunciada nas ruas
Em Faro e na Figueira da Foz, os sindicatos da hotelaria, restauração e similares temperaram o calor de Agosto com a exigência do fim do bloqueio patronal à negociação da contratação colectiva.
Desde 2007, houve 10 anos em que a tabela salarial ficou congelada
Devido a este bloqueio, este é «o sector que paga os salários mais baixos em Portugal». Como se refere na moção aprovada e distribuída na capital algarvia, na manhã de dia 19, o número de trabalhadores a receber o salário mínimo nacional aumentou cerca de 140 por cento nos últimos 10 anos, representando hoje cerca de 80 por cento dos trabalhadores na hotelaria, turismo, restauração e similares.
No entanto, o sector acumulou muitos milhões de euros de lucros nos últimos anos. No documento, aprovado e apresentado aos jornalistas nas imediações dos hotéis Eva e Faro, assinala-se que, «entre 2011 e 2019, os proveitos na hotelaria registaram um aumento de 124 por cento, enquanto que a remuneração-base média dos trabalhadores teve um aumento de apenas quatro por cento, ao mesmo tempo que a taxa de inflação foi cerca de 10 por cento».
Desde 2007, devido ao bloqueio patronal, o Contrato Colectivo de Trabalho celebrado com a AIHSA «foi revisto apenas três vezes», ou seja, houve 10 anos em que os salários ficaram congelados.
«Na maior parte das empresas, os direitos dos trabalhadores não estão a ser cumpridos, nomeadamente, em relação ao pagamento das folgas, feriados, horas extras, abono para falhas» e é no turismo, com uma forte desregulação dos horários de trabalho, que mais se faz sentir o flagelo da precariedade, atingindo actualmente cerca de 70 por cento dos trabalhadores,
A situação destes «está a ser ainda mais agravada com as medidas desadequadas e desequilibradas, a favor do patronato, que o Governo tem vindo a tomar no âmbito do combate à COVID-19».
Para entregarem a moção, os dirigentes e activistas sindicais desfilaram até às sedes da AIHSA e da Região de Turismo. Durante o percurso, o documento foi distribuído à população.
«Só a luta organizada dos trabalhadores forçará o patronato a mudar a sua posição», realçou o sindicato da Fesaht/CGTP-IN, no comunicado de imprensa que emitiu após o protesto.
Também na passada quinta-feira, 19, o Sindicato da Hotelaria do Centro realizou uma jornada com dirigentes, delegados e activistas. De manhã, teve lugar um encontro de quadros, no parque de merendas de Montemor-o-Velho. De tarde, realizou-se uma acção na Avenida 25 de Abril, na Figueira da Foz, manifestando a exigência de aumentos salariais e melhores condições laborais frente a restaurantes e hotéis.
«Consideramos necessário transmitir aos trabalhadores um sinal de confiança e, ao mesmo tempo, de esclarecimento», explicou aos jornalistas um dirigente do sindicato. Citado pela agência Lusa, António Baião salientou que os trabalhadores foram aqui «duplamente penalizados» com o surto epidémico: as empresas não foram elegíveis para recorrerem ao lay-off apoiado e os trabalhadores acabaram por deixar de receber salários.
Igualmente por aumentos salariais e melhores condições de trabalho, no dia 16, em Coimbra, junto da Administração Regional de Saúde, durante o quarto dia de uma greve «bastante participada», tinham-se manifestado os trabalhadores da SUCH que asseguram os serviços de manutenção, alimentação, lavandaria e rouparia nos hospitais de Viseu, Leiria e Coimbra.
«Todos os meses estes trabalhadores irão fazer um dia de greve, enquanto a empresa SUCH não reconhecer a sua antiguidade e o seu saber», disse então António Baião.
Porsches escondidos
Na sexta-feira, dia 20, ao final da manhã, trabalhadores de restaurantes do Grupo Madureira’s organizados no Sindicato da Hotelaria do Norte realizaram, junto do Restaurante Grill e do escritório central, em Rio Tinto (Gondomar), a sua quinta acção de luta pelo pagamento dos direitos dos cerca de 50 funcionários despedidos a pretexto da epidemia.
Quando a gerência se apercebeu da aproximação dos manifestantes, retirou os quatro automóveis Porsche, que estavam estacionados à porta dos escritórios, relatou o sindicato.
Num comunicado distribuído aos clientes, durante a hora de almoço, trabalhadores e sindicato denunciaram o aproveitamento da crise sanitária pelos patrões, para despedirem sem pagar os direitos devidos. Mesmo os já de si baixos valores estão a ser pagos a prestações, havendo trabalhadores a receber pouco mais de 40 euros mensais.
«Nos últimos anos, o Grupo Madureira’s cresceu muito e é bem visível o nível de riqueza dos seus sócios», afirma-se no comunicado.