Regresso

Correia da Fonseca

No serão do passado sábado, a RTP1 transmitiu o episódio inicial de «O atentado», breve série que aborda o atentado (um pouco artesanal, um pouco ingénuo) que em 1937 visou Salazar, então apenas com cerca de uma década de um poder ditatorial que haveria de se prolongar por décadas. O que até agora se viu de «O Atentado» está marcado por alguma insipiência e talvez alguma timidez, o que não surpreende: Salazar continua a ser um tema espinhoso e porventura armadilhado. Ainda assim, porém, este regresso ainda que episódico aos primórdios do salazarismo (mas não tão primeiros ou primitivos que neles não estivesse já presente a PIDE que haveria de garantir a longevidade da ditadura) é tendencialmente saudável: ao longo já de décadas nunca a televisão portuguesa, designadamente a pública RTP, se aplicou seriamente a contar-nos a ditadura fascista. Nem sequer insistiu num pormenor eloquente mas saboroso: mal nos revelou que Salazar tinha sobre a sua secretária de trabalho uma foto de Mussolini enriquecida com dedicatória autografada pelo retratado. E, contudo, como bem se compreende, esse pormenor quase ocultado é eloquente. E porventura só se entenderá a sua omissão no possível quadro da intenção de omitir também o mais importante: a proximidade que quase se diria familiar entre o fascismo português e o seu homólogo italiano, afinal pouco mais velho ainda que mais vocacionado para se dar em descarado espectáculo.

Razão bastante

De qualquer modo, a observação mínima que «O Atentado» sugere é a de que desde sempre escasseiam na televisão portuguesa, quer na pública quer na privada, trabalhos directa ou indirectamente documentais acerca do fascismo português e da resistência que se lhe opôs. Dir-se-ia que essa resistência difícil, dramática, muitas vezes heróica, é coisa de um passado que para alguns mais vale esquecer ou simplesmente arquivar no fundo de uma imaginária gaveta onde esteja a vivência de um povo ao longo de anos. Ou pior: que essa resistência não agrade a todas as memórias. E não passemos demasiado depressa sobre essa ausência: a resistência ao poder fascista, permanente e continuada, conta com muitas paginas de coragem, sacrifício e (não evitemos a palavra) de verdadeiro patriotismo que não se confunde com o patrioteirismo que lá vai cantando e rindo. Aí, nessas páginas que a televisão não recorda , tem destacado lugar a acção dos comunistas e dos seus mais próximos «compagnons de route», para utilizar aqui uma expressão que o dr. Soares usava com aparente gosto. É dessa resistência, dessa coragem comunista ou não, que directa ou indirectamente nos vem falando «O Atentado». Razão bastante para que lhe digamos que é bem-vinda.




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