Um herói silencioso

Correia da Fonseca

É tradicional que a televisão goste de heróis e, mais que isso, de trazê-los para diante dos nossos olhos e de partilhar connosco os seus méritos efectivos ou supostos. Podemos até considerar que esse pendor é um dos seus atributos fundamentais, e quanto a isso tudo está bem: é certo que o conceito de heroicidade que a TV cultiva pode ser diferente do nosso, mas quando muito há que ter paciência e passar adiante. Ora, na verdade acontece que da heroicidade há também diversas formas e parece legítimo que prefiramos umas tantas a outras: há-as do género «Robin dos Bosques», por exemplo, adequadas ao gosto adolescente, e outras mais próprias de gente mais madura. Ora, no serão da passada segunda-feira a RTP trouxe-nos um caso exemplaríssimo do tipo de heroicidade que se agita pouco, que não berra nada, mas nem por isso desmerece da categoria comportamental que apela ao nosso respeito: foi o caso de Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus no ano de 1940, quando Salazar mandava em Portugal e Hitler não apenas mandava na Alemanha mas então já também noutros países europeus invadidos e ocupados pela vaga nazi.

 

Ainda hoje


Como se sabe, o nazismo hitleriano desembestou contra os judeus de um modo especialmente selvático, fazendo do anti-semitismo terrorizante um instrumento de coesão interna. Em consequência, a rápida derrota da França perante as divisões «panzer» gerou entre os judeus franceses ou que em França se haviam acolhido um reflexo de justificado receio e o compreensível desejo de escaparem desta Europa «nazificada» para uns Estados Unidos que seriam asilo seguro. Ora, o caminho para esse refúgio teria Lisboa como obrigatório ponto de passagem, e a entrada em Portugal, naturalmente por via de Espanha, tinha como condição inevitável a obtenção de um visto consular português nos passaportes dos foragidos. Era Bordéus a cidade francesa que estava no natural caminho dessa gente e em Bordéus estava um cônsul português que poderia proceder a essa formalidade indispensável: chamava-se Aristides de Sousa Mendes. A ele recorreram, pois, centenas de foragidos em demanda de uma saída da quase armadilha em que se tornara a França derrotada: pretendiam que o seu passaporte recebesse um «visto» que lhes permitiria a sobrevivência, na circunstância um «visto» português que abriria caminho para Lisboa e depois para o lado de lá do Atlântico. Dizendo-o de outro modo: para a vida. Não teriam as condições burocráticas, técnicas, para receberam esse «visto» mas, repete-se e acentua-se: do outro lado estava a sobrevivência. E Aristides de Sousa Mendes, cônsul português, não terá hesitado: entre a obediência medrosa ao governo que Salazar comandava e o dever de ser fiel às regras humanitárias que naturalmente informam as acções da gente digna mesmo que rara, Aristides Sousa Mendes escolheu a dignidade. Não gostaram disso Salazar e o salazarismo: o cônsul foi demitido, morreu pobre e com a família imersa em dificuldades. Mas morreu digno e exemplar. Não é certo que o seu comportamento seja sempre, no passado ou agora, um exemplo amplamente seguido. Mas também por isso mesmo lhe estamos gratos. Ainda hoje; pois ainda hoje são muito precisos homens assim.



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