Gbagbo regressou dez anos depois

Carlos Lopes Pereira

O antigo presidente da República da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, regressou em meados de Junho ao seu país, depois de 10 anos preso e às ordens do Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia. Era acusado de crimes de guerra e crimes contra a humanidade mas, ao fim de uma década, foi absolvido. Desde 2019 que aguardava, em Bruxelas, a confirmação do veredicto final da justiça e a autorização para regressar a África.

O seu advogado, Habiba Touré, que viajou com ele, declarou à AFP que Gbagbo estava entusiasmado e queria aproveitar a sua libertação para tentar reconciliar os marfinenses.

Gbagbo, acolhido em Abidjan com manifestações de júbilo por milhares de apoiantes da sua Frente Popular Marfinense (FPI), posicionou-se já como líder da oposição, embora assegurando que «não tem contas a ajustar».

O actual chefe do Estado, Alassane Ouattara, seu adversário político, garantiu que respeitará todos os direitos do antecessor, em nome da «reconciliação nacional».

Pelo alegado papel na guerra civil que abalou a Costa do Marfim em 2010/2011, Gbagbo foi acusado de ter lançado o país no caos recusando-se a reconhecer resultados oficiais que atribuíam a Ouattara o triunfo nas eleições presidenciais. Em sua defesa, o então presidente e recandidato argumentou que a proclamação dos resultados da votação pelo Tribunal Constitucional marfinense, dando-o como vencedor, não podia ser contestada.

Em Março de 2011, após quatro meses de mediações infrutuosas, as Forças Republicanas da Costa do Marfim (FRCI), antigos rebeldes que controlavam o Norte do país, pró-Ouattara, lançaram uma ofensiva militar sobre o Sul e dominaram rapidamente a quase totalidade do território. Nesta guerra civil, morreram cerca de três mil pessoas.

Dois meses depois, Gbagbo foi preso pelas FRCI, após uma batalha de 10 dias em Abidjan e de maciços bombardeamentos pelas tropas francesas da Operação Licorne e pelas forças da ONU, que tinha reconhecido a vitória da Ouattara nas urnas.

A França, antiga potência colonial da Costa do Marfim, onde mantém uma base militar, recebera um mandato das Nações Unidas para «proteger os seus cidadãos» e submeter as forças leais a Gbagbo, e a sua intervenção no conflito foi, no mínimo, «controversa», escreve a RT France.

Os militares franceses controlaram o aeroporto da capital, combateram os apoiantes de Gbagbo e ajudaram a facção adversária a capturá-lo. Terminados os combates, Ouattara foi levado para o palácio presidencial numa coluna blindada das forças de Paris. Detido em Abidjan, Laurent Gbagbo foi mais tarde transferido para Haia.

Conta agora a revista Jeune Afrique que, no início desta semana, Gbagbo declarou que foi preso e enviado para o TPI porque «era preciso afastar um homem incómodo, um adversário que causava embaraços». Foi a primeira vez que se referiu publicamente ao seu infame julgamento e à sua absolvição.

O regressado ex-dirigente da FPI e ex-presidente da Costa do Marfim, de 76 anos, falava aos jornalistas na sua aldeia natal, Mama, perante as autoridades tradicionais que o foram saudar. Acolhido triunfalmente por milhares de pessoas, reafirmou que nunca cometeu qualquer crime e que vai trabalhar pela reconciliação nacional e pela paz na Costa do Marfim.




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