«Atravessar a estrada para fugir de casa só um rapaz o faz» (Pavese)

Domingos Lobo

Sérgio de Sousa dá-nos uma vez mais uma escrita modelar e culta

A narrativa ficcional, por muito que a queiramos preencher de derivações do mais delirante imaginário, vai sempre diluir-se nas memórias do autor, entrosar-se nelas. Sobretudo, como é o caso do mais recente romance de Sérgio de Sousa, autobiografia de uma pessoa, quando a ficção entronca em fragmentos da realidade histórica do País, num período temporal entre os anos 1950 e a primeira década pós-25 de Abril de 1974.

Os livros, os filmes, a boémia mansa, as tertúlias literárias pelos cafés, poiso e percurso obrigatório da esquerda culta de uma Lisboa vigiada; os cine-clubes, os cinemas de bairro, os concertos na Gulbenkian, as noites no S. Carlos, são marcas identitárias de uma geração que buscava nos livros, nos filmes, nas exposições e na música, o cadinho de céu onde pudesse respirar, libertar-se do sufoco imposto pelos quotidianos cinzentos e mórbidos que o fascismo impunha.

Uma geração que ansiava libertar-se, que queria romper as amarras familiares – também ela tolhedora: «Não só quem nos odeia e nos inveja/ Nos limita e oprime; quem nos ama/Não menos nos limita», dirá Ricardo Reis; geração que queria atravessar a estrada e fugir de casa, mas a casa-cerco era todo o espaço da cidade onde apenas a fruição dos livros, e os mundos que neles habitam, se assemelhavam a pequenos oásis no deserto de calhaus que era o País salazarento.

Sérgio de Sousa, que é um dos nossos mais hábeis cronistas da burguesia urbana e culta, na senda de Urbano, Abelaira e algum David Mourão-Ferreira, traça neste romance o retrato a sépia de uma família, cuja progressão conflitual, em determinados momentos, se confunde com a nossa história comum nesses anos malsãos, percorrendo em paralelo a autobiografia de uma mulher que se quer libertar do sufoco de um País à mercê de um ditador, servidor implacável dos desígnios do grande capital. A PIDE omnipresente, as lutas académicas dos anos 1960, a sedução pelos ventos libertários do Maio 68, as atribulações de um tempo histórico de lutas e de tomada de consciência política e social.

Há nesta narrativa, que entronca nas teorias do nouveau roman, no sentido barthiano de que «num romance tudo cabe», uma série de figuras (e alguns figurões) que são paradigmáticas da estrutura social da burguesia e dos seus rituais de classe: os almoços de domingo, a missa na «nova» Igreja de São João de Deus, as criadas com os seus segredos e manhas de sobrevivência, o tio Mário, a ovelha ronhosa da família, que teve «morte santa» nos braços das prostitutas; a mãe que viu no casamento a oportunidade de tornar-se «dona de casa a tempo inteiro»; as idas ao cinema, às soirés de Sábado; os conflitos latentes nas relações entre os cônjuges (que terminará em divórcio); a pacatez ritualizada e hipócrita da burguesia nos anos do fascismo.

 

Mudar de vida

Sérgio, que é um exímio descritor dos universos femininos, diz-nos das complexas relações com a progenitora, os primeiros, e inconsequentes, arroubos amorosos, os filmes (Há Lodo no Cais, p.ex.), as tertúlias no VáVá, o aflorar da Guerra Colonial, a volúpia do primeiro beijo, o «andar nas nuvens» dos arrebatamentos adolescentes, as lavadeiras de Caneças (registe-se a precisão descritiva do autor, acerca da perícia com que as lavadeiras embrulhavam a trouxa), referência evidente ao filme de Chianca de Garcia. Os livros que constituíram parte substantiva da formação cultural e ideológica da personagem, como referentes identitários de uma geração de esplendores e angústias, que tinha na literatura o seu alimento de contestação e resistência.

As viagens pela Europa feitas com os amigos (numa atmosfera libertina que sugere os amigos de Alex): Mikonos, Bruxelas, Paris, Amsterdão; o crescimento, o casamento, os filhos, a política, a explosão libertária do 25 de Abril. O retrato, não só de uma mulher a emancipar-se (e o sexo como vertente dessa condição), mas de uma geração que ao longo de 45 anos, num País que livro a livro, filme a filme, ia tendo consciência de que era urgente lutar para ser livre e mudar a vida.

Como já nos habituou, ao longo da sua já vasta bibliografia, Sérgio de Sousa dá-nos, uma vez mais, um livro denso, numa escrita modelar e culta, expurgada de modismos formais, que vai muito para além do mero labor ficcional, remetendo-nos para os fecundos territórios da memória geracional, para um tempo que ainda estrutura, ideológica e socialmente – ao nível dos nossos mais profícuos imaginários -, o nosso tempo.




Mais artigos de: Argumentos

Que desporto temos? Que desporto queremos?

Sejam quais forem os resultados da equipa portuguesa nos próximos Jogos Olímpicos, não se pode deixar de constatar que o desporto português é um dos mais atrasados da Europa, quer em termos qualitativos, quer quantitativos. Para se compreenderem as razões deste atraso, torna-se indispensável...

No mundo

É sabido, e disso até nos orgulhamos quando estamos para aí virados, que os portugueses viajam por esse mundo fora desde o tempo das caravelas, pelo menos, que assim passaram além de várias Trapobanas e para lá delas se fixaram pelo preço nunca inteiramente solvido de sangue, suor e lágrimas. Os tempos mais evidentemente...