Que desporto temos? Que desporto queremos?

A. Melo de Carvalho

Em Portugal, só na década de 60 é que o desporto substituiu a ginástica sueca nas escolas

Sejam quais forem os resultados da equipa portuguesa nos próximos Jogos Olímpicos, não se pode deixar de constatar que o desporto português é um dos mais atrasados da Europa, quer em termos qualitativos, quer quantitativos. Para se compreenderem as razões deste atraso, torna-se indispensável conhecer a forma como esta actividade social é predominantemente entendida no PaÍs, especialmente por parte dos responsáveis políticos e os dirigentes.

Ao contrário daquilo que correntemente se pensa, o desporto não se define de uma forma única, consensualmente aceite. Uns consideram-no como uma «escola de vida», querendo com isso dizer que ele possui um valor educativo, culturalmente válido em si mesmo; outros defendem uma posição contrária, chegando a considerá-lo como intrinsecamente negativo.

Um conceituado autor deu-se ao trabalho de pesquisar as definições de desporto, tendo descoberto mais de trezentas. O que aqui interessa, consiste em determinar quais foram as definições que maior influência exerceram na compreensão actual do desporto.

Pierre de Coubertin, o fundador dos modernos Jogos Olímpicos, elaborou uma definição que marcou historicamente o desporto durante todo o século XX: «Desporto é o culto voluntário e habitual do esforço muscular intensivo, apoiado no desejo de progresso e podendo chegar ao risco.»

Esta definição foi prontamente contestada por vários dos teóricos dos finais do século XIX. Na verdade, o desporto foi muito contestado até finais da década de quarenta, especialmente por muitos médicos e educadores. Em Portugal só na década de sessenta é que substituiu a ginástica sueca dentro das escolas públicas, e se iniciou a sua difusão de forma significativa.

Todavia, esta definição, e todas aquelas que dela derivaram, mostrou-se incapaz de responder ao processo da extraordinária expansão das actividades desportivas, na medida em que se mostrava demasiado restritiva, selectiva e elitista. Se eram positivas para um pequeno grupo privilegiado, porque é que não deveriam ser praticadas por toda a população? A UNESCO, respondeu a esta reivindicação com uma nova definição: «O desporto tem como objectivo permitir a cada um e a todos, seja qual for o sexo e a idade, conservar as aptidões físicas e mentais necessárias à sua sobrevivência e para preservar a espécie humana de toda a degenerescência.»

Esta foi a definição inicial que deu origem ao desporto para todos, formulação que respondia aos anseios das populações. Como se sabe, este passou a ser citado pelos políticos, mas assumindo, com demasiada frequência, um marcado pendor demagógico.

A Carta Europeia do Desporto (1992) apresenta uma nova definição igualmente marcante: «Entende-se por desporto todas as formas de actividades físicas que, através de uma participação organizada ou não, têm por objectivo a expressão ou o melhoramento da condição física e psíquica, o desenvolvimento das relações sociais ou a obtenção de resultados na competição a todos os níveis.»

Todavia, estas duas definições foram imediatamente contestadas pelos responsáveis do chamado desporto tradicional integrado nas federações. Estas recolheram o essencial de muitas outras definições que mantinham as prerrogativas do desporto chamado de competição. Esta definição considerava que só se podia considerar desporto as actividades físicas devidamente institucionalizadas, competitivas e respeitando as regras definidas pelas federações desportivas internacionais, visando a obtenção do mais elevado rendimento do praticante (resumo aos aspectos essenciais).




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