No mundo

Correia da Fonseca

É sabido, e disso até nos orgulhamos quando estamos para aí virados, que os portugueses viajam por esse mundo fora desde o tempo das caravelas, pelo menos, que assim passaram além de várias Trapobanas e para lá delas se fixaram pelo preço nunca inteiramente solvido de sangue, suor e lágrimas. Os tempos mais evidentemente épicos desse percurso estarão encerrados, mas algum resultado dele permanece: estamos não apenas na Ibéria e na Europa mas também, pelo menos um pouco, por todo o lado desta “bola de lama” a que se refere um amargo poema de António Nobre. Ora, acontece que a televisão se lembrou agora, e bem, de visitar esses portugueses com a dupla vantagem de permitir que saibamos notícias suas e de lhes fazer saber que não nos desinteressamos deles. Não se poderá dizer que essa visita resultou num admirável programa, mas dir-se-á com justiça que foi limpinho e esforçado, o que já não é pouco, assim fossem todos.

 

Dívida mínima

A relativa satisfação com o programa não tem de implicar, porém, alguma espécie de saciedade: na verdade, seria de desejar e talvez de esperar que a oportunidade oferecida pelo programa tivesse ido decididamente mais longe e mais fundo. Sabemos, será talvez mais adequado dizer que na maior parte dos casos adivinhamos, que o quotidiano dos emigrantes portugueses é difícil e amargo; por isso mesmo é que não podemos dispensarmo-nos de o conhecer: é a nossa dívida mínima para com eles. Ao decidir levar-nos a visitar pelo menos alguns desses compatriotas que um dia tiveram de partir, quase teria sido uma obrigação complementar ultrapassar superfícies: não basta que saibamos que eles estão ali, é preciso que saibamos como estão, que dificuldades enfrentam, porventura que riscos os ameaçam. O défice da reportagem situou-se na superficialidade que era preciso ultrapassar: não o fez, ficou-se pela casca, foi pena. Mas já há algum mérito, mínimo embora, da TV e de nós todos, por nos lembrarmos deles. Poderá também imaginar-se um nosso pedido desculpa por muitos dos que partiram terem sido obrigados a isso. Por vezes por culpa dos que ficaram.




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