38.º Festival de Teatro de Almada

O Festival decorre entre 2 e 25 de Julho em sete teatro de Almada e Lisboa


Mesmo com as restrições impostas pela pandemia, a Companhia de Teatro de Almada, sob a direcção do dramaturgo e encenador Rodrigo Francisco, organizou, com o apoio da Direcção Geral das Artes e da CM de Almada, mais uma edição do que é considerado o mais importante festival de teatro que entre nós tem lugar.

O 38.º Festival de Almada decorre entre 2 e 25 de Julho em sete teatros de Almada e Lisboa – Teatro Municipal Joaquim Benite, Fórum Romeu Correia, Incrível Almadense, Academia Almadense, Teatro-Estúdio António Assunção, Centro Cultural de Belém e Teatro Nacional D. Maria II – apresentando um total de 21 produções divididas por 108 sessões.

Esta edição do Festival coincide com os 50 anos de existência do projecto teatral concebido por Joaquim Benite, com o então Grupo de Campolide, do qual a actual Companhia de Teatro de Almada (CTA) é legítima herdeira. Neste Festival, a CTA apresentará duas produções próprias, Um gajo nunca mais é a mesma coisa, de Rodrigo Francisco, peça que aborda as memórias e sequelas psicológicas da Guerra Colonial, a partir de um conjunto de entrevistas realizadas com três ex-combatentes, tema também presente na peça Corpo Suspenso, de Rita Neves; Hipólito, de Eurípedes, na qual Teresa Gafeira regressará à personagem Fedra, que já interpretou na peça de Racine, com encenação desse mestre que é Rogério de Carvalho.

 

Movimento, introspecção, intervenção

Das criações internacionais, salientamos: Omma, do coreógrafo e bailarino húngaro Nadj, que regressa ao Festival com uma produção que pretende que olhemos para o mais íntimo de nós, através do movimento, da musicalidade e da voz dos oito bailarinos, oriundos do Congo, Senegal, Mali, Costa do Marfim e Burkina Faso; Molly Bloom, pelos belgas Viviane De Muynck, actriz e o encenador Jan Lauwers, também eles já presentes em outras edições do Festival, que nos dão a ver o relato de Molly Bloom, personagem do famoso romance Ulisses, de James Joyce, revelando-nos os seus pensamentos sobre os homens, as suas memórias e a sua situação social. Uma poderosa reflexão sobre a condição feminina; Maria Callas – Cartas e Memórias, de Tom Volf, dá-nos um retrato desencantado da mais famosa cantora de ópera de sempre, interpretada pela não menos famosa actriz Monica Bellucci.

De registar ainda duas criações baseadas em textos do jovem escritor francês Édouard Louis, autor desse perturbante romance que é Acabar com Eddy Bellegueule, em duas peças Quem matou o meu pai e História da violência, em que os temas da humilhação, verbal e física, a homofobia, a violência social, os códigos de classe e a influência da extrema-direita sobre os operários e os excluídos do capitalismo, são temas centrais. Pelo Festival passarão ainda peças de Alfred de Musset, Lorenzaccio, encenado por Rogério de Carvalho, de Pasolini, De Filippo e Tennessee Williams.

 

Agitar as águas

Das criações de artistas portugueses, registamos O canto do cisne, de Clara Andermatt, pela Companhia Nacional de Bailado; Fake, de Miguel Fragata e Inês Barahona, pela companhia Formiga Atómica e esse incontornável, e já clássico, texto de Alberto Pimenta, Discurso sobre o filho da puta, publicado em 1977. Com música de Miguel Azguime e encenação de Fernando Mora Ramos, este «vírus da filha-da-putice» promete, uma vez mais, agitar as águas; Viagem a Portugal, de Joana Craveiro, que pede o título a José Saramago, projecto do Teatro do Vestido, propõe-se esboçar um retrato do Portugal Possível, como diria Ruy Belo.

O teatro espanhol regressa ao Festival com dois espectáculos de grande intensidade política e social: Rebota rebota..., de Agnés Mateus e Quim Tarrida, sobre o flagelo da violência doméstica sobre as mulheres; e Miguel de Molina a nu, de Félix Estaire, sobre a figura do bailarino e cantor Miguel de Molina, perseguido pelo franquismo dada a sua homossexualidade e a sua ligação ao exército republicano durante a guerra civil.

Um 38.º Festival de Almada recheado de bom Teatro. A não perder, portanto.




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