A Revolução na Arte e a Arte na Revolução

Manuel Pires da Rocha

Na Festa, a Arte está ao alcance de todos

Não há artes melhores do que outras artes. Não são os sons mais excelentes do que as cores, nem o gesto mais importante do que a palavra. Por isso é que os humanos, quando deram conta de que era possível reinventar o que viam e ouviam, se foram fazendo músicos, pintores, poetas e demais escritores, bailarinos, dramaturgos, contadores de histórias e o mais que pudesse acrescentar assunto à construção da Humanidade.

Chegámos ao século XXI donos de um repertório imenso, inscrito na tal História que é o livro dos acontecimentos e das leituras que os produzem e interpretam. Em todos os lugares, e também nos da Arte, está presente o povo. Aquele povo das respostas às Perguntas de um Operário Letrado, de Bertolt Brecht. O povo que, no primeiro fim de semana de cada Setembro, desde há quase cinco décadas, preenche as alamedas da Festa, desde a FIL às Quintas da Atalaia e do Cabo da Marinha, também na celebração da Arte que é elemento de construção dos tempos todos, e do futuro também.

Serão os construtores da Festa indiferentes a inscrições no relato das epopeias. Mas quem esteve presente na edição de 2020 da Festa do Avante! terá percebido de quanta razão se faz a luta dos comunistas e de muitos outros democratas. Erguida para ser celebração, a Festa provou (uma vez mais) ser um lugar central da luta pela democracia, resistente a todas as provocações, a todas as calúnias, a todas as ameaças. A Festa do Avante! que agora, de novo, se prepara – adivinhando-se o ataque que, de novo, a visará – é um objeto artístico total, poderosa manifestação de massas que usa todas as ferramentas de construção do futuro para afirmar, em poucos hectares, a realidade que se programa para Portugal inteiro: uma sociedade de iguais em direitos, em que a fruição não é independente da vivenciação, seja no que for.

A Festa do Avante! não é um «evento», não é um «festival». É o lugar das dimensões todas da Cultura, em que o «público» de um momento é criador logo a seguir. No mapa da Festa, o Sul de Portugal pode situar-se a norte e o Centro ao pé das Ilhas, mas do espaço onde seja Alentejo há-de haver sempre uma moda de Cante a esclarecer geografias. E para os lados de «Coimbra» haverá uma viola a enquadrar as vozes que se desalinham, sempre que o canto colectivo seja mais urgente do que a justeza do tom.

Pinturas por todo o lado, que as fizeram hábeis mãos, oferecidas ao olhar crítico dos «podões» que, mesmo incapazes da aventura do traço, gostam de o sentir e comentar o seu curvar. Porque, na Festa, a Arte não é o reduto privado de «especialistas» – é um bem essencial que está ao alcance de todos, matéria mesma de um mundo em mudança (desde que a primeira mão humana desenhou o primeiro traço que não foi acaso, e que a primeira voz humana entoou o primeiro som a querer ser música).

 

Cultura é direito

Arte também é Trabalho. Que o digam os artistas a quem é negado o pão nestes tempos de emergência sanitária. Foi deles a palavra de denúncia das prioridades do capitalismo, na primeira Festa do Avante! em que a presença dos artistas em cima dos palcos foi acto de resistência ao ruído acusatório da classe dominante e dos seus lacaios.

No ano do Centenário do PCP, subirão ao palco da celebração Beethoven, Ana Seara, Carlos Garcia e Filipe Melo – três jovens compositores orquestrando obras da Comuna de Paris, de Hanns Eisler e de Lopes-Graça –, António Victorino D’Almeida. O primeiro Concerto da Festa vai revelar páginas musicais de estar «a revolução na arte e a arte na revolução», desde a celebrada Quinta Sinfonia à Carvalhesa, afirmando que o alinhamento de sons não é diferente da intenção que os motiva.

Nos 100 anos do PCP, o palco da Música junta passado e presente na projecção do futuro, somando argumentos à reivindicação de que a Cultura – leu-se nestes dias na primeira página do semanário que dá nome à Festa – «é um direito universal».




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