Cinco milhões

Correia da Fonseca

Telespectador que acumule essa sua condição com a de leitor da imprensa diária, pois ainda os há, poderá ter reparado numa notícia de primeira página que nos informava da participação portuguesa num acordo multilateral que visa retirar da pobreza cinco milhões de crianças. E, se notou a notícia escrita, poderá ter procurado a sua réplica audiovisual. Em vão: se porventura algum telenoticiário a incluiu, o que é duvidoso, terá sido de modo tão discreto e fugaz que não terá deixado rasto na memória de quem olha o ecrã muitas vezes sem prestar atenção. E, contudo, cinco milhões de crianças são muita criança, o mesmo é dizer que é muito futuro e também muito risco, e já que o acordo fechado à escala europeia sobre esta importante matéria o foi sob a presidência portuguesa, teria sido bonito e sobretudo adequado que pelo menos a operadora pública de TV, a Radiotelevisão Portuguesa, se tivesse demorado um pouco sobre o assunto. Não aconteceu, ninguém se surpreenderá por isso, mas talvez se justifique o registo da omissão.


Lá como cá

Quem porventura se tenha interrogado acerca das condições concretas em que vivem ainda hoje os tais cinco milhões de crianças europeias terá ficado estacionado na ignorância: a imprensa não deu pormenores, a televisão também não, e ficamos assim: nós nessa ignorância, os cinco milhões na pobreza. Ainda assim é claro que é chocante: estamos habituados, sim, a que a TV nos traga imagens de crianças imersas na maior miséria, mas são sempre ou quase sempre crianças africanas, e não será surpreendente que muitos de nós comentem de si para si que é triste, lamentável, dramático, mas que elas, não europeias, já devem estar habituadas, reflexão que é quase um convite para que nos acomodemos ao facto. Ora, no caso desta notícia sucede que não, que não estamos habituados ao facto de haver milhões de crianças europeias na pobreza. É certo que sabemos de crianças portuguesas a viverem nessa situação, mas aqui entra uma espécie de direito tácito a que os portugueses, crianças incluídas, vivam mais imersos na pobreza do que a generalidade dos outros europeus: é um pouco como se se considerasse que estar na «Europa» (seja ela o que for) já é uma sorte, um privilégio, que desautoriza eventuais reclamações. Vem agora esta informação acerca dos cinco milhões de crianças europeias na pobreza e dificilmente poderemos evitar um travo de surpresa e amargura: afinal as Europas não são o quase paraíso ao alcance da mão? Afinal esses cinco milhões de crianças serão, lá como cá, o produto da exploração dos socialmente débeis pelos poderosos, da tantas vezes negada luta de classes? Afinal, por ser assim, lá como cá a luta tem de continuar?




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