Roleta

Anabela Fino

A presidente da direcção da Agência Europeia do Medicamento (EMA), Christa Wirthumer-Hoche, afirmou este domingo que recorrer à utilização da vacina russa Sputnik-V é comparável a «uma roleta russa», pelo que aconselhava os países da União Europeia a não a autorizarem.

A reacção dos criadores da vacina, ligados ao centro de investigação Gamaleia e ao Fundo Soberano Russo, não se fez esperar. Exigindo um pedido de desculpas, fizeram notar que tais comentários, para além de inapropriados, atentam contra a credibilidade da EMA e do processo de avaliação, que está a decorrer, da vacina Sputnik-V, indiciando a existência de «possíveis interferências políticas».

As acusações russas são pertinentes. Com efeito, está por esclarecer por que motivo a EMA adiou durante meses o processo de validação daquela vacina, já reconhecida por 46 países, não obstante o fornecimento das já autorizadas pela UE (BionNTech/Pfizer, AstraZeneca/Oxford e Moderna, às quais se deverá juntar hoje a da Johnson & Johnson) estar longe de corresponder às expectativas.

Se, como dizem, a preocupação é imunizar a população o mais rápido possível; se não se olhou a meios (dos contribuintes) para garantir um lugar na linha da frente dos fornecimentos; se se aceitou os contratos leoninos impostos pelas farmacêuticas (incluindo a desresponsabilização por eventuais efeitos secundários) e o secretismo de muitas das suas cláusulas; se, apesar de tudo isso, os prazos não estão a ser cumpridos, por que razão a EMA retarda a validação da Sputnik-V e nem sequer encara apreciar as quatro vacinas já aprovadas pelas autoridades chinesas (outras oito estão em desenvolvimento)?

Não é de esperar que a Agência Europeia do Medicamento responda a estas questões, mesmo sabendo que a China arrancou com a produção em massa daquelas vacinas no Verão de 2020 e se propõe produzir e entregar 500 milhões de doses a 45 países. Ainda no mês passado o presidente da Sinovac, Yin Weidong, garantiu que a empresa poderá vir a produzir mil milhões de doses por ano, enquanto a Sinopharm anunciou há dias que a sua produção poderá ascender a três mil milhões de doses por ano.

Não sendo admissível propalar que o governo chinês pretende eutanaziar a sua população de cerca de um bilião e meio de habitantes com vacinas de roleta, a crítica aqui é a de que o gigante asiático as usa como «arma» diplomática, já que o país se comprometeu a torná-las «um bem público comum e distribuído de forma justa e equitativamente», como noticiou a agência noticiosa oficial Xinhua.

Pois é. Ficar à mercê de interesses capitalistas não é política, é a ordem natural das coisas. Política é pensar primeiro no interesse dos povos.

Afinal, isto não é uma questão de roleta, é um problema de croupier.




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