Para além da «bazuca», um alerta que ecoa

João Ferreira

1. A Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos (FMTC), organização que celebra os seus 75 anos de existência, de acção empenhada nas causas da paz e do progresso, lançou este mês um alerta intitulado «Covid-19 e alterações climáticas».

Neste alerta, que é simultaneamente um apelo à acção, chama-se a atenção para «o tremendo impacto de um único vírus». Assinala-se o «enorme esforço da comunidade científica mundial, cuja contribuição é essencial para ter sucesso no controlo da doença». Mas sublinha-se, também, que «a corrida ao lucro das multinacionais e o egoísmo dos países ricos perante esta pandemia são obstáculos à cooperação internacional e à justiça e fragilizam toda a humanidade na luta contra o vírus». Um apelo devia ecoar fundo numa União Europeia que, objectivamente, colocou os interesses egoístas das multinacionais farmacêuticas à frente dos interesses dos povos.

Nos últimos dias, confrontada com uma vacinação que avança a conta-gotas, fruto dos constrangimentos existentes do lado da produção, submetida aos critérios de negócio das farmacêuticas, a presidente da Comissão Europeia voltou a recusar a possibilidade de abrir as patentes das vacinas desenvolvidas por essas farmacêuticas, financiadas com recursos públicos. Opção que permitiria mobilizar mais capacidade produtiva, acelerar a produção de vacinas e a vacinação, logo, salvar vidas, além de retomar mais rapidamente a actividade económica e social, sem os pesados constrangimentos actuais. Entretanto, depois da Pfizer anunciar que espera facturar mais de quinze mil milhões de euros em 2021, com a sua vacina, é a vez da AstraZeneca anunciar que os seus lucros cresceram 159 por cento em 2020, ascendendo a mais de dois mil e quinhentos milhões de euros.

Além da Covid-19, a FMTC alerta que “as mesmas observações desconfortáveis podem ser feitas acerca das alterações climáticas. (...) «não se trata de um vírus, mas de uma doença de toda a biosfera [que] tem e terá graves efeitos destrutivos a nível mundial. O papel da ciência e da tecnologia é indispensável para encontrar formas de reduzir os impactos humanos destrutivos na natureza». O documento termina com um apelo à «transformação de toda a actividade humana num sentido dirigido à sustentabilidade».

Propaganda e negócios «verdes» à parte, não parece ser neste sentido que caminhamos.

2. Muito se continua a falar dos milhões de apoio que hão de vir da UE, para fazer frente às consequências da Covid-19 e «relançar a economia». Mas quase um ano após a irrupção da pandemia, até agora, nem um euro a mais (face ao que já estava previsto) chegou a Portugal, descontando alguns empréstimos, essa elucidativa manifestação da «solidariedade europeia». Entretanto, a aprovação do regulamento do Mecanismo de Recuperação e Resiliência foi pretexto para relembrar, mais uma vez, o dinheiro que aí vem, talvez lá mais para o Verão.

Mas a anunciada «bazuca» está longe, muito longe, de responder às necessidades de investimento com que o país se confronta. Além de vir atrelada a regras de condicionalidade, que poderão desviar, ainda mais, os recursos das necessidades reais do país.




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