Os outros vírus
A RTP, e não apenas ela mas também as outras operadoras que enformam a televisão portuguesa, têm vindo a falar-nos abundantemente do famigerado vírus que chegou para infernizar o nosso quotidiano reduzindo-nos à condição de bicharocos domésticos mas não inteiramente domesticados. Fazem elas muito bem, entenda-se, ou melhor, cumprem elas o seu dever, pois entre outras tarefas cabe-lhes registar o que nos incomoda, apoquenta ou ameaça. Porém, será oportuno e adequado registar que este vírus, que usa como apelido o número 19, não é o único que infecta o nosso quotidiano individual e/ou colectivo: é apenas o de surgimento mais recente e cuja índole mais se presta a suscitar celeuma e/ou alarme: em verdade, outros vírus, chamemos lhes assim, se instalaram há muito tempo nas nossas vidas, tanto e de tal modo que há muito são olhados como inevitáveis, como forçosos complementos da sociedade em que vivemos: não será fácil, porventura nem será possível enumerar sequer os principais, mas talvez se possa tentar fazê-lo. Tentemos pois: desemprego, exploração do homem pelo homem, insegurança social. Há muitos outros, bem se sabe, mas fiquemo-nos agora por estes, que são serão os bastantes para o que agora mais importa.
Apesar das aspas
Ora, como ficou dito no topo desta nota, o vírus a que chamámos famigerado (e é chamar-lhe pouco) tem vindo a protagonizar os conteúdos dos diversos canais da televisão portuguesa. Não se questiona o bom fundamento dessa prática: em verdade, tudo quanto abale a tranquila normalidade do nosso quotidiano pode ser encarável como notícia, não há nada a objectar quanto a isso. O que pode suscitar reflexões, e reflexões amargas, é que os outros factos que com maior ou menor adequação podemos equiparar a pandemias de outra índole e diversa dimensão não suscitem repercussões na TV. Um pouco por todo o país, mais em certos tempos e lugares que noutros, há despedimentos, salários de miséria ou próximos disso, instabilidade laboral, tudo isso e decerto mais algumas circunstâncias a gerarem angústias e desesperos, e aparentemente a TV não sabe nada disso. Sabe de futebol, bem o sabemos, e não é nada avara na transmissão dessa sabedoria, mas parece claro que tal prenda é escassa. Sem minimamente tentarmos reduzir a importância da pandemia que tende a trancar-nos em casa, convém, até para benefício da nossa lucidez, não esquecer que há outros «vírus» ainda que seja adequado grafá-los entre aspas. E o terrível é que também eles podem ameaçar serem letais.