Uma Lição de História e de Civilização

Manuel Augusto Araújo

A relação entre cristãos e islâmicos teve violências brutais e persistente coexistência e tolerância

Lusa

Há oitocentos anos, cinco frades franciscanos italianos foram torturados e decapitados em Marraquexe por ordem do califa Abu Yussuf al-Mustandsir, que a história regista como os Mártires de Marrocos, com todo o simbolismo de serem os primeiros martirizados pelo Islão. É esse o pretexto para a exposição A Cristandade e o Islão na Formação de Portugal, exposição que, até dia 28 de Fevereiro, pode ser visitada no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), organizada com grande pormenor e rigor científico pelos arqueólogos e historiadores Santiago Macias e Joaquim Caetano, director do MNAA.

É uma exposição fundamental para se perceber que é essencial «conhecer o passado para compreender o presente, sobretudo quando há quem queira resumir esse presente a um nós contra eles» como sublinha Santiago Macias, esclarecendo o sentido da frase inscrita numa réplica de uma lápide do Castelo de Alandroal que transcreve a divisa do reino de Granada, o último reino islâmico da Península Ibérica: «não há vencedor sem ser Deus».

Considera a frase como uma provocação de alguém que ficou e diz «no meio disto tudo, vocês não ganharam (…) o que vivemos hoje, com a radicalização do discurso em alguns sectores da sociedade, da política, com a identificação dos árabes como o inimigo em cenário de guerra, de terrorismo ou em relação aos refugiados, não é novo. E essa radicalização faz-se ignorando que continua a haver territórios no Islão em que há cristãos há séculos e cristãos com poder». É exactamente isso que é exposto e demonstrado nesta exposição em que se evidencia toda uma história de violências brutais mas também de persistente coexistência e tolerância entre duas civilizações e que é determinante para as derivas das cartografias entre ambas que ainda hoje persistem nalgumas áreas geográficas não completamente estabilizadas.

Em mais de duzentas peças enfatiza-se a simultaneidade entre o confronto e a convivência entre cristãos e árabes na formação do reino de Portugal, com destaque para a conquista de Lisboa. Joaquim Caetano afirma que «qualquer país precisa dos seus inimigos e também dos seus mártires e heróis. Os nossos heróis são os que venceram «o outro», são a memória da vitória, mesmo depois de mortos e, se calhar, sobretudo depois de mortos”, o que aduba o maniqueísmo que ainda subsiste em muitos manuais escolares, o que esta exposição esvazia. Os dois historiadores, ao organizarem esta excepcional e extensa exposição, comprovam que a história não é a das verdades e das falsidades dos que triunfam, que rasuram, embora em graus diversos, as verdades e as falsidades dos vencidos. Que quando se aprofunda com rigor científico a história é mais particularmente relevante o que vencidos e vencedores partilham do que aquilo que os separa, uma contaminação em que florescem as civilizações.

Uma fascinante viagem pelos séculos VIII até XII-XIII, que regista os momentos de grande violência entre cristãos e mouros, de intolerâncias extremas, de grandes repressões mas também o clima de coexistências, de convivências que se arquitectavam com maiores ou menores tensões.

Uma imperdível exposição, uma notável lição de história e de civilização, apoiada por um catálogo que é fundamental, a par de outros estudos já publicados, para se entender os sucessos e insucessos da ocupação árabe na Península Ibérica e a formação do reino de Portugal.

 



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