Uma sociedade decadente debate decadentemente
O primeiro debate entre Trump e Biden foi a erupção cutânea de um tumor profundo. Inúteis do ponto de vista informativo, os 90 minutos de interrupções e insultos foram uma amostra da decadência histórica da democracia burguesa nos EUA. Caótico, violento e imoral: o debate pôs a nu os termos em que, dentro de um mês, se vão disputar as eleições presidenciais nos EUA. Trump decidiu não respeitar as regras pré-estabelecidas do debate, interrompendo constantemente o adversário, insultando, mentindo, provocando. Mas Biden revelou-se confuso e inábil perante a táctica do republicano, que não só conseguiu puxar o democrata para uma luta na lama como emergiu vitorioso da competição de gritos, mentiras e imbecilidades em que é indisputavelmente campeão.
A democracia nos EUA surge assim personificada como Chris Wallace, o experiente jornalista que tentava, em vão, moderar o debate para apenas ser olimpicamente ignorado. O mais importante debate da vida política estado-unidense redundou numa troca de galhardetes descontrolada: com Biden a chamar «palhaço» a Trump e o presidente a ripostar chamando-lhe estúpido. Ao melhor estilo dos reality-shows pontificados por Trump antes da sua reencarnação presidencial, Chris Wallace, o experiente jornalista que moderava o debate, foi incapaz de fazer valer a sua autoridade para cumprir as regras e impedir um espectáculo degradante. E tal como no debate desta quinta-feira, a pergunta necessária é como foi possível: que o regime estado-unidense tenha permitido que um troglodita reduza a democracia burguesa a uma lamentável «troglocracia» burguesa; que o único oponente ao troglodita seja politicamente tão inapto; que esse troglodita proclame aos quatro ventos que não respeitará as regras democráticas; que, apesar das diferenças de forma e de estilo, os dois candidatos não divirjam em nada no essencial.
«Isto não vai correr bem»
A tendência monopolista do capitalismo não é apenas económica: manifesta-se também na esfera política. À medida que o poder político se concentra cada vez mais nas mãos de cada vez menos grupos económicos, dá-se o bizarro fenómeno de se extremarem as contradições políticas à medida que se exacerbam as proximidades ideológicas. Trump e Biden não discordaram em quase nada durante todo o debate: quando o presidente acusou o adversário de querer construir um serviço nacional de saúde público e universal, o democrata apressou-se a desmenti-lo; quando o tema foi a China, ambos asseguraram que seriam mais agressivos do que o seu oponente. E ainda assim, Trump voltou a ameaçar com um golpe de Estado caso não vença as eleições.
«Isto não vai correr bem», agoirou o presidente referindo-se à «fraude eleitoral» dos votos por correspondência. Pela milionésima vez, Trump repetiu que a contagem dos resultados pode demorar «meses» e voltou a admitir a possibilidade de simplesmente não reconhecer os resultados do escrutínio, uma possibilidade que deve ser lida à luz das diligências presidenciais para preencher rapidamente a cátedra da juíza do Supremo Tribunal, Ruth Bader Ginsburg, recentemente falecida, com mais um juiz conservador que aceite carimbar o golpe com o selo da legitimidade judicial.