Uma sociedade decadente debate decadentemente

António Santos

O primeiro debate entre Trump e Biden foi a erupção cutânea de um tumor profundo. Inúteis do ponto de vista informativo, os 90 minutos de interrupções e insultos foram uma amostra da decadência histórica da democracia burguesa nos EUA. Caótico, violento e imoral: o debate pôs a nu os termos em que, dentro de um mês, se vão disputar as eleições presidenciais nos EUA. Trump decidiu não respeitar as regras pré-estabelecidas do debate, interrompendo constantemente o adversário, insultando, mentindo, provocando. Mas Biden revelou-se confuso e inábil perante a táctica do republicano, que não só conseguiu puxar o democrata para uma luta na lama como emergiu vitorioso da competição de gritos, mentiras e imbecilidades em que é indisputavelmente campeão.

A democracia nos EUA surge assim personificada como Chris Wallace, o experiente jornalista que tentava, em vão, moderar o debate para apenas ser olimpicamente ignorado. O mais importante debate da vida política estado-unidense redundou numa troca de galhardetes descontrolada: com Biden a chamar «palhaço» a Trump e o presidente a ripostar chamando-lhe estúpido. Ao melhor estilo dos reality-shows pontificados por Trump antes da sua reencarnação presidencial, Chris Wallace, o experiente jornalista que moderava o debate, foi incapaz de fazer valer a sua autoridade para cumprir as regras e impedir um espectáculo degradante. E tal como no debate desta quinta-feira, a pergunta necessária é como foi possível: que o regime estado-unidense tenha permitido que um troglodita reduza a democracia burguesa a uma lamentável «troglocracia» burguesa; que o único oponente ao troglodita seja politicamente tão inapto; que esse troglodita proclame aos quatro ventos que não respeitará as regras democráticas; que, apesar das diferenças de forma e de estilo, os dois candidatos não divirjam em nada no essencial.

«Isto não vai correr bem»

A tendência monopolista do capitalismo não é apenas económica: manifesta-se também na esfera política. À medida que o poder político se concentra cada vez mais nas mãos de cada vez menos grupos económicos, dá-se o bizarro fenómeno de se extremarem as contradições políticas à medida que se exacerbam as proximidades ideológicas. Trump e Biden não discordaram em quase nada durante todo o debate: quando o presidente acusou o adversário de querer construir um serviço nacional de saúde público e universal, o democrata apressou-se a desmenti-lo; quando o tema foi a China, ambos asseguraram que seriam mais agressivos do que o seu oponente. E ainda assim, Trump voltou a ameaçar com um golpe de Estado caso não vença as eleições.

«Isto não vai correr bem», agoirou o presidente referindo-se à «fraude eleitoral» dos votos por correspondência. Pela milionésima vez, Trump repetiu que a contagem dos resultados pode demorar «meses» e voltou a admitir a possibilidade de simplesmente não reconhecer os resultados do escrutínio, uma possibilidade que deve ser lida à luz das diligências presidenciais para preencher rapidamente a cátedra da juíza do Supremo Tribunal, Ruth Bader Ginsburg, recentemente falecida, com mais um juiz conservador que aceite carimbar o golpe com o selo da legitimidade judicial.




Mais artigos de: Internacional

Mais medidas dos EUA agravam bloqueio contra Cuba

SANÇÕES Viajantes norte-americanos não podem alojar-se em hotéis que sejam propriedade do Estado cubano e estão proibidos de importar rum e charutos. À porta das eleições nos EUA, recrudesce o bloqueio contra Cuba.

Esquerda chilena quer Constituição de Pinochet no caixote de lixo da História

Daniel Jadue, alcaide da comuna de Recoleta, em Santiago do Chile, exortou os partidários de uma nova Constituição para o Chile a conseguir mais de dois terços de delegados na Convenção Constituinte. O edil comunista, hoje a figura da oposição mais bem avaliada nas sondagens para uma candidatura presidencial, afirmou que...

China apela à unidade para fortalecer multilateralismo

O presidente da China, Xi Jinping, afirmou que o unilateralismo e a hegemonia são práticas impopulares e sem cabimento no que designou de comunidade internacional, à qual instou a unir-se para fortalecer o sistema multilateral. Num diálogo com o secretário-geral da ONU, António Guterres, no quadro da 75.ª Assembleia...