Aplausos… que se vai cantar o Fado

Manuel Pires da Rocha

Amália subirá ao palco da Festa do Avante! no ano em que se completaram os seus 100 anos

Eram três, os éF’s com que o fascismo português procurava glorificação e camuflagem: Fátima, Futebol e Fado. Acontece, porém, que Fé não é obrigatoriamente submissão, Desporto não é necessariamente alienação e Canção não tem de ser instrumentalização.

Apostado, contudo, na invenção de uma «política do espírito» em que o fascismo subisse ao palco dos aplausos e do glamour, o regime encarregou o SNI, e demais institutos, da procura de identificadores para aquilo que António Ferro considerava ser o «verdadeiro [povo], aquele que gosta de ser povo, através das próprias dificuldades do seu viver, mas sem agressividade, sem ódio, sem especular, em tom mais ou menos comicieiro, com essa clarificação de povo que lhe agrada, sem saber porquê». A candura assim vertida era a ilustração perfeita do dito de Salazar segundo o qual «os povos antigos ou são tristes, ou são cínicos. A nós, portugueses, coube ser tristes».

Armou-se, por isso, o cenário em que coubesse o protagonista de destinos tristes e sequestrou-se um canto que lhe fosse estandarte: o Fado.

O «povo» de Salazar não era o da Marinha Grande em 18 de Janeiro de 1934, nem o das greves operárias e manifestações de 1941, na Covilhã, de 1942, em Lisboa e arredores e de Julho e Agosto de 1943, na capital e na Margem Sul do Tejo, por pão e géneros, contra o fascismo e pela liberdade. Não era certamente o de 1962, lutando pela jornada de trabalho de oito horas nos campos do Alentejo, nem era o encerrado e torturado no Aljube, em Caxias e em Peniche. Não era, claramente, o que ocupou as ruas e as praças em 25 de Abril de 1974.

Acontece que este povo sabia cantar, versejar, pisar as cordas de guitarras e violas. E valeu-se dessas artes para segurar um Fado que não era um F – antes crónica de vidas e programador de anseios – a que viriam juntar-se músicos como Alain Oulmain e poetas como Alexandre O’Neill, David Mourão Ferreira, Manuel Alegre, José Carlos Ary do Santos e outros mais, negando ao fascismo o uso e o abuso do Fado. É este o Fado que vai à Festa do Avante!, desde sempre e também na edição de 2020.

Amália na Festa
Amália Rodrigues subirá ao palco da Festa do Avante! no ano em que se comemoram os 100 anos do nascimento da fadista. Por mérito próprio, já que ninguém, como Amália, se envolveu tão profundamente – e com ela o Fado – na História recente de Portugal e respectivas contradições, de um lado Uma Casa Portuguesa, do outro lado o Fado Peniche (Abandono), a Trova ou Alfama.

Amália, Amor e os Poetas é o espectáculo em que, nas vozes de Cidália Moreira, Ana Sofia Varela e Luís Caeiro, será evocada «a mulher, fadista, cantora, poetisa e centro infindável de inspiração para todos, desde as gentes do quotidiano que a tinham como alimento dos dias até aos maiores artistas de todas as áreas, entre eles os melhores poetas e letristas».

Aldina Duarte: «O grande acontecimento que marca a minha primeira infância é o fascismo. A minha infância foi triste, cruel. (…) As crianças pobres assistem à humilhação dos pais, pobres. (…) O fascismo é isso. Achar que há seres humanos de primeira e seres humanos de segunda. [O segundo momento da minha infância foi] o 25 de Abril, é óbvio. Foi a restituição da dignidade merecida». E se Aldina assim o diz, assim também o cantará, trazendo ao palco da Festa os muitos tempos do Fado que reuniu em Roubado – CD cujo título traduz, de uma assentada, um recurso expressivo do canto fadista e um acto comprovadamente meritório (o do «roubo» de repertório a celebrados fadistas).

Aplausos, pois, que se vai cantar o Fado!

 



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