Remdesivir – o Gang

Ângelo Alves

A Gilead Sciences é uma multinacional bio-farmacêutica dos EUA que tem ganho milhares de milhões de euros na venda de fármacos para doenças como a Hepatice C ou o HIV/SIDA a preços exorbitantes - 1800 Dólares no caso do Truvada, usado no combate ao HIV/SIDA e que já proporcionou lucros na ordem de 36 mil milhões de Dólares. Vem aí agora, nas palavras do director financeiro da gigante farmacêutica «uma oportunidade de negócio para vários anos» - o Remdesivir, medicamento inicialmente concebido para o combate ao Ébola, que não cura nem previne a COVID-19, mas que terá efeitos positivos, nomeadamente no tempo de hospitalização, apesar da sua eficácia ser ainda alvo de discussão.

A Gilead é conhecida pelas guerras de propriedade intelectual, pela agressividade comercial e pelo máximo proveito que retira das patentes para ganhar enormes fortunas. O seu CEO – Daniel O’Day, que em Março de 2019 transitou da Roche para a Gilead - foi recebido em Maio na Sala Oval da Casa Branca. O Encontro serviu para tecer loas à Gilead e para anunciar a autorização de emergência do uso Remdesivir e para promover o medicamento «made in USA».

Agora vieram as notícias concretas. O medicamento, que tem um custo de produção de 1 Dólar por unidade e que recebeu 70 milhões de fundos públicos no processo de investigação e desenvolvimento, irá ser «fornecido» a entidades governamentais ao preço de 390 Dólares a unidade e a 520 dólares no circuito comercial. Um tratamento de cinco dias custará cerca de 3120 Dólares. A perspectiva do negócio é tão alta que o preço das acções da empresa subiram 19% e já se discute uma fusão entre a Gilead e a britânica AstraZeneca – negócio que permitirá uma capitalização das duas empresas de 230 mil milhões de Dólares. E para que nada corra mal no «espantoso negócio» (nas palavras da própria Administração dos EUA), Trump já «encomendou» 100% da produção de Julho e 90% da produção em Agosto e Setembro. O paralelismo com a imagem do «Gang» é inevitável.




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