O regresso do ranking
Tal como vem acontecendo no final dos anos lectivos, surgiu há dias nos «média», televisão naturalmente incluída, o «ranking» da acção escolarizadora de estabelecimentos de ensino privados e públicos, isto é, dos presumíveis méritos de uns e de outros. E, tal como vem acontecendo em sucessivos anos, desse «ranking» claramente se depreende que os campeões da eficácia no ensino são os colégios privados cuja designação desde logo revela a sua proximidade, se não pertença, a organizações de carácter religioso/confessional, surgindo o ensino público em posição de evidente desfavor na eficácia. Entenda-se, porém, que o mais relevante nessa hegemonia não é a sua maior ou menor intimidade com os valores cristãos, mas antes a condição social dos alunos cujo aproveitamento projecta o colégio ou a escola para os lugares de topo na classificação. É claro que a ocupação desses primeiros lugares tende a ter um efeito de promoção publicitária: todos os pais desejariam decerto que os seus filhos frequentassem escolas/colégios situados no topo desse «ranking» de eficácia. A questão, como bem se sabe, é que essa situação tem um preço. Talvez até seja mais adequado dizer-se que tem dois preços: um dele directo, o da mensalidade a pagar, e outro indirecto, o da situação da família na sociedade.
Um sinal do futuro
Temos, pois, que o «ranking» acaba por informar a população em geral e os pais em particular que o ensino mais eficaz, mais proveitoso e propiciador de uma vida escolar feliz nos anos seguintes, é o ensino ministrado em colégios privados dificilmente acessíveis aos filhos de trabalhadores com salários
mais ou menos escassos. Não é difícil intuir as consequências desse facto: os meninos vão crescer, percorrer os diferentes graus de ensino, e um dia irá acontecer que alguns deles irão ocupar lugares de maior ou menor relevo na sociedade, ao passo que a outros caberão situações de subalternidade. Assim, a existência de dominadores e dominados, o mesmo é dizer que de opressores e oprimidos ainda que em diverso grau, tem muito alguma coisa a ver com este «ranking» de escolas em que, porventura forçando um pouco a sua leitura, podemos adivinhar em transparência a divisão da sociedade em classes com adivinháveis consequências no futuro quotidiano. Não é exactamente um instrumento de adivinhação do futuro, mas tem alguma coisa disso. Talvez também por isso seja tão amplamente divulgado.