Grandes manifestações nos EUA contra o racismo e a violência policial
CRISE Duas semanas depois do assassinato de George Floyd, centenas de milhares de pessoas nos EUA continuam a protestar contra o racismo, a brutalidade policial e as desigualdades sociais. As manifestações ocorrem no meio da emergência sanitária e de uma profunda crise social e económica.
Protestos ocorrem em plena crise económica e social agravada pela pandemia
Milhares de pessoas voltaram a sair às ruas das cidades mais importantes dos Estados Unidos, no sábado e domingo, 6 e 7, para protestar contra o assassinato de George Floyd, a 25 de Maio, e exigir medidas contra o racismo e a violência policial.
Floyd, de 46 anos, morreu em Minneapolis, no Estado do Minnesota, depois de um polícia lhe ter pressionado o pescoço com o joelho durante cerca de oito minutos, numa operação de detenção. Desde a divulgação das imagens do crime, sucederam-se protestos contra o racismo e a brutalidade policial em centenas de cidades dos 50 Estados norte-americanos. Os quatro polícias envolvidos no caso foram despedidos e, depois, acusados, um deles por homicídio, arriscando 40 anos de prisão, e os restantes por cumplicidade.
O número de manifestantes, no passado fim-de-semana, alcançou níveis recordes em cidades como Washington, São Francisco, Los Angeles, Nova Iorque, Chicago, Filadélfia e Boston. Na capital federal, juntaram-se milhares de pessoas perto do Memorial a Lincoln e da Praça Lafayette, nas proximidades da Casa Branca, onde foram reforçadas as medidas e segurança. Em Manhattan, Nova Iorque, decorreu uma iniciativa apelidada «A marcha dos sonhos roubados e das vidas tiradas».
Ao longo das duas últimas semanas, os manifestantes têm exigido reformas radicais para acabar com a brutalidade policial e a iniquidade racial, já que crimes como este em Minneapolis são frequentes na comunidade afro-americana e ficam muitas vezes impunes.
Os protestos, em geral pacíficos, ficaram marcados em alguns casos por confrontos violentos com a polícia, que recorreu a gás lacrimogéneo, bastões e até a voos rasantes de helicópteros. Foram registados casos de incêndios e pilhagens de lojas. Muitas cidades, incluindo Washington e Nova Iorque, impuseram o recolher obrigatório. Alguns Estados pediram a intervenção da Guarda Nacional. A imprensa revelou que foram detidas pela polícia cerca de 10 mil pessoas, a maior parte delas por incidentes menores.
Generais criticam Trump
Em plenas manifestações anti-racistas nos EUA, o secretário de Defesa, Mark Esper, discordou que o presidente Donald Trump utilizasse o Exército para fazer frente aos protestos populares no país. O titular do Pentágono disse, no dia 3, que a Guarda Nacional é mais adequada para prestar ajuda às autoridades civis nestas situações.
Trump, muito criticado por usar uma retórica divisionista face aos protestos pela morte de George Floyd, tinha afirmado no dia 1 que se uma cidade ou Estado se recusasse «a tomar as medidas necessárias para defender a vida e a propriedade dos habitantes», então chamaria o Exército.
A possibilidade de Trump proceder desse modo foi rejeitada por figuras republicanas e democratas, entre as quais governadores, que descartaram pedir esse tipo de intervenção nos seus Estados.
Esper explicou que o recurso ao Exército só deveria ocorrer em último recurso e unicamente em situações urgentes ou graves. «Não estamos agora numa situação dessas», «não apoio invocar a Lei da Insurreição», afirmou.
Trump não concretizou a ameaça e o Exército não chegou a intervir, mas o Pentágono confirmou que várias unidades, num total de 1600 efectivos, foram enviadas para a região de Washington para o caso de ser ordenada a sua entrada na capital.
No dia em que o secretário da Defesa tornou pública a sua posição, o general James Mattis, seu antecessor à frente do Pentágono, acusou Trump de ser o primeiro presidente no seu tempo de vida que «não tenta unir o povo americano – nem mesmo finge que tenta». Em vez disso, acusou, «ele tenta dividir-nos». Mais: «Estamos a testemunhar as consequências de três anos deste esforço deliberado. Estamos a testemunhar as consequências de três anos sem uma liderança madura».
Outro general aposentado, John Allen, ex-comandante das forças norte-americanas no Afeganistão, criticou a ameaça de Trump de fazer aplicar a Lei da Insurreição. «Não bastava que manifestantes pacíficos tivessem sido privados dos seus direitos da Primeira Emenda. Esta oportunidade de foto procurou legitimar esse abuso com uma camada de religião», escreveu na revista Foreign Policy. Allen referia-se à ordem dada às forças de segurança para desimpedirem, com gases lacrimogéneos e gás pimenta, o Parque Lafayette, junto à Casa Branca, para Trump poder posar para a imprensa, com uma Bíblia na mão, à frente da igreja de São João.
Vidas negras contam
Fora dos EUA, em diversas cidades, de Sydney e Toronto a Paris e Londres, realizaram-se no fim-de-semana passado manifestações contra o racismo e de solidariedade com George Floyd.
Londres foi palco de protestos de rua contra a violência policial e a discriminação racial. Sob a consigna Black lives matter (Vidas negras contam), um dos protestos teve lugar junto da embaixada dos EUA e reforços policiais foram enviados para a zona, a fim de prevenir a repetição de incidentes violentos. Noutras cidades do Reino Unido também houve protestos. Em Bristol, manifestantes derrubaram a estátua do comerciante de escravos e parlamentar inglês Edward Colston, de finais do século XIX.
Em Espanha, milhares de pessoas, com máscaras e tentando manter a distância recomendada, juntaram-se no domingo em frente à embaixada dos EUA em Madrid, numa manifestação convocada pela Comunidade Negra Africana e Afrodescendente.
Em França, mais de 20 mil pessoas participaram em manifestações contra o racismo e a violência policial. A maior concentração realizou-se em Paris, no sábado, em frente à embaixada dos EUA. Na Alemanha, pessoas saíram à rua, em Berlim e Hamburgo, em solidariedade com os manifestantes norte-americanos que têm protestado contra o assassinato de George Floyd. Em Roma, milhares de pessoas juntaram-se na Praça do Povo.